CLARISSE CRISTAL EM DIAS DE SOL E CALOR

 


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

Algo avassalador eclodiu no âmago mais profundo de Clarisse Cristal naquela hora extrema. A bibliotecária da livraria e editora independente olhava nos olhos de Anna Victória com voracidade extrema, com uma profundidade abissal para a obtusa colega de trabalho, parada a poucos centímetros dela. Foi como um voraz turbilhão de sentimentos e sensações contraditórios que, em chamas ardentes, eclodiram no jovem corpo de mulher e também na mente entediada de Clarisse Cristal.

Os profundos olhos azuis-piscina, os longos e reluzentes cabelos trigais soltos que caíam até os ombros emolduravam o rosto de porcelana; o delicado batom vermelho-cereja nos lábios carnudos, os pequenos brincos artesanais animale azul-turquesa, o pequeno, cintilante e delicado piercing com a sua joia cor-de-rosa encravada no nariz afilado pareciam fazer sentido somente naquele momento para a desesperada Clarisse Cristal. Até mesmo a voz arrastada e enfadonha de Anna se transmutou, mais que de repente, em um bel canto da mais bela e mística sacrossanta Kianda.

E em um ato de puro desespero, em um rompante, a jovem bibliotecária Clarisse Cristal tomou Anna Victória pelos braços e lhe deu um beijo ardente na boca. A estupefata Anna Victória foi apanhada em meio a turbilhões de sentimentos contraditórios também. Ela pensou, primeiro, nas duas câmeras de alta resolução postadas nos cantos superiores da sala, que estavam retransmitindo em tempo real e gravando a cena toda em alta definição. A vendedora sênior de livros pensou na possibilidade de alguém estar assistindo ao que ocorria ali ou de ver as imagens arquivadas no disco rígido, ou em alguma nuvem, e, mais tarde, caírem na rede mundial de computadores. Pensou, ainda, na possibilidade de alguém de repente aparecer naquele exato momento e na possibilidade do namorado ficar sabendo do ocorrido, de uma forma ou de outra. Pensou nas famílias de ambas que, embora não fossem próximas, frequentavam os mesmos ambientes.

Anna Victória temeu que os colegas de trabalho vissem a cena e, por fim, temeu a outra que a beijava com tanto ardor e desejo, e a tomava pelos braços de forma vulcânica. E, por fim, Anna Victória — que pensava se conhecer tão bem, conhecer a própria sexualidade — viu-se retribuindo faminta não somente o beijo lascivo, mas também os toques da outra, enquanto as mãos de Clarisse Cristal passeavam por suas costas.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noites de tempestades e frio. Texto de Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.