Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)
No final da tarde
Alguém me deu um presente:
Um buquê de flores.
Eram rosas brancas e vermelhas.
***
Alguém querendo me
surpreender...
Mal sabe o cidadão
Que eu odeio surpresas.
Pudera, cresci vendo as garotas
escort
Trabalhando em plena luz do dia
Na movimentada Avenida do
Estado.
***
Adoraria convida-lo para
experimentar
Um mergulho mais íntimo
Nas minhas imensidões
Os meus recessos
Mais escuros e profundas
Das minhas múltiplas
personagens femininas.
***
Eu tomei a difícil decisão
De amenizar a minha literatura
Em versos e em prosas
Só para agradar olhos cegos
E ouvidos surdos alheios.
***
Mas logo me arrependo
E volto atrás.
Eu tenho que aprender
A passar de todos os meus
limites,
Do que acho possível!
Sem me arrepender,
***
Vou trilhar os caminhos tortos
Que eu mesma escolhi.
É a minha vida
E são as minhas regras.
São as minhas escritas borradas
Que continuam sendo censuradas
Pela natureza-morta
De um tirano
Que eu conheço muito bem.
***
Por favor, não me convidem
Para o carnaval na Jamaica.
A minha ambição limitada
E o meu humor ácido
Não me deixam sair
De onde estou agora.
E acho que nunca vão deixar.
***
E no alto da minha
sensibilidade
De uma mulher negra e frágil
Que lê, pensa e escreve,
Acho que tenho os pés mais
lindos
E sensuais do mundo.
***
O Grege Sander vive me dizendo:
— Por favor! Mostre mais deles.
O mundo está louco para lê-los
e vê-los.
Caso não saiba, o mundo é teu,
meu amor!
***
E eu rebato:
— As minhas vagas memórias nuas
Estão sentadas na minha janela.
Do meu apartamento,
Não veem os corpos em queda
Que logo se estrebucham no
chão?
Fragmento
do livro, Sustentada no ar por negras asas fracas, texto de Clarisse Cristal,
poetisa, cronista, contista, novelista e bibliotecária de Balneário Camboriú,
Santa Catarina.