Por Eneida Moraes Miranda Zähler
Sofás com fios puxados
Pernas, braços e móveis arranhados
Pêlos por todo lado,
Mas tudo isso, no entanto,
Vale pelo carinho
Que vem bem de mansinho
Dessas lindas criaturas,
Que sem amarguras
Nos levam em um segundo
Para o seu doce
E encantado mundo.
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
Revista literária online, uma viagem cultural online pela literatura, poesia, cinema e artes. Editada, desde 2011, pelo Jornalista e escritor Paccelli José Maracci Zahler (RP/MTE nº 14402/DF; FENAJ; FIJ nº BR20943). Poemas, crônicas, contos, ensaios, e o melhor da cultura nacional e internacional. Todas as opiniões aqui expressas são de responsabilidade dos autores. Aceitam-se colaborações. Contato: cerrado.cultural@gmail.com
TEMPO
Por Cassiane Schmidt
Flores de papel enfeitam o jardim
Nuvens no céu ensaiam tempestades
Elfos em serenata tocam clarim
A saudade vagueia em alucinantes viajens
Prelúdios da noite seduzem o dia
O sino da igreja lembra-me das horas
A melancolia com as lembranças brinda
Sonhos esquecidos onde ninguém mais mora
Letras e músicas na alma deixam rastros
O destino borda as marcas do tempo em fino tecido
Crianças presas em porta-retratos
Congelam corpos adormecidos
Quero parar o tempo com as mãos
Ressuscitar folhas de calendários
Ouvir aquela velha canção!
Encontrar nos braços de mamãe meu relicário
De manhã, cheiro doce, pés no chão
Vida tecida pelas mãos da felicidade...
À tarde: desajustes, reajustes de tempo, contradição
Bolo sem velas partilha a idade...
À noite: cortejos de sombras conduzem o passado
Cartas sem destinatários convidam a partir
As horas crucificaram o tempo calado
Hora de dormir...
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
Flores de papel enfeitam o jardim
Nuvens no céu ensaiam tempestades
Elfos em serenata tocam clarim
A saudade vagueia em alucinantes viajens
Prelúdios da noite seduzem o dia
O sino da igreja lembra-me das horas
A melancolia com as lembranças brinda
Sonhos esquecidos onde ninguém mais mora
Letras e músicas na alma deixam rastros
O destino borda as marcas do tempo em fino tecido
Crianças presas em porta-retratos
Congelam corpos adormecidos
Quero parar o tempo com as mãos
Ressuscitar folhas de calendários
Ouvir aquela velha canção!
Encontrar nos braços de mamãe meu relicário
De manhã, cheiro doce, pés no chão
Vida tecida pelas mãos da felicidade...
À tarde: desajustes, reajustes de tempo, contradição
Bolo sem velas partilha a idade...
À noite: cortejos de sombras conduzem o passado
Cartas sem destinatários convidam a partir
As horas crucificaram o tempo calado
Hora de dormir...
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
ENCONTRO
Por Cassiane Schmidt
Naquela tarde vazia
Quando meu olhar encontrou o teu
Não imaginei que nascia
Uma dor no peito meu
Distância agora é sentença
Banco de réus pra paixão
Vou divulgar meu amor na imprensa
Escandalizar o seu/meu coração
Nada de dor, nada de lágrimas
Componho versos de memórias
Registro sonhos em páginas
Último capítulo da história
O relógio é cúmplice do tempo
Lembranças esquecidas em gavetas
Velhos calendários lançados ao vento
Amor velado em linhas de letras
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
Naquela tarde vazia
Quando meu olhar encontrou o teu
Não imaginei que nascia
Uma dor no peito meu
Distância agora é sentença
Banco de réus pra paixão
Vou divulgar meu amor na imprensa
Escandalizar o seu/meu coração
Nada de dor, nada de lágrimas
Componho versos de memórias
Registro sonhos em páginas
Último capítulo da história
O relógio é cúmplice do tempo
Lembranças esquecidas em gavetas
Velhos calendários lançados ao vento
Amor velado em linhas de letras
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
CORDELIGA-A-TRIPA
Por Gustavo Dourado
Homenagem ao Grupo Musical de Brasília
Para Aldo Justo e Nonato Veras
Liga a Tripa e o Pensamento
Liga a alma e o coração
Liga o sonho e o desejo
Religa com emoção
Quem se Liga... não des.liga:
Liga-a-Tripa da canção...
Aldo Justo faz justiça
Liga o sonho trovador
Ita é pedra do eterno
Com verso transmutador
Nonato, Fino, Carrapa:
Duboc luz cantador...
Liga o Mundo e a Natureza:
Márcio experimental
Aldo e Ita no Beirute
Um violão sem-igual
Não se quebra a poesia:
Liga Tripa Musical...
Não se mata a criação
A arte não se espanca
Revolucionar o Ser:
Alegrar minha carranca
Liga a Tripa agora e sempre:
O infinitom se destranca...
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
Homenagem ao Grupo Musical de Brasília
Para Aldo Justo e Nonato Veras
Liga a Tripa e o Pensamento
Liga a alma e o coração
Liga o sonho e o desejo
Religa com emoção
Quem se Liga... não des.liga:
Liga-a-Tripa da canção...
Aldo Justo faz justiça
Liga o sonho trovador
Ita é pedra do eterno
Com verso transmutador
Nonato, Fino, Carrapa:
Duboc luz cantador...
Liga o Mundo e a Natureza:
Márcio experimental
Aldo e Ita no Beirute
Um violão sem-igual
Não se quebra a poesia:
Liga Tripa Musical...
Não se mata a criação
A arte não se espanca
Revolucionar o Ser:
Alegrar minha carranca
Liga a Tripa agora e sempre:
O infinitom se destranca...
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
NÃO SE MATA A POESIA
Por Gustavo Dourado
O poeta não morreu
Está em encantamento
Não se mata a poesia
Lorca é puro sentimento
Voa eterno pela vida:
Nas ondas do pensamento...
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
O poeta não morreu
Está em encantamento
Não se mata a poesia
Lorca é puro sentimento
Voa eterno pela vida:
Nas ondas do pensamento...
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
A SAGA DE SÃO SEPÉ (poesia gauchesca)
Por Antônio Francisco de Paula
Em mil setecentos e vinte e dois
Na redução de São Luís Gonzaga
Nascia naquelas plagas
Um bugrinho iluminado
Guarani de muita fé
Conhecido por Sepé
Que em guri foi adotado
Levado pra São Miguel
A vizinha redução
Para junto de teus irmãos
Naquela terra bendita
Onde foi catequizado
Educado e preparado
Pelos padres jesuítas
Ali vivia contente
Com teu povo irmanado
Cultivando lavoura e gado
Alimentos para o sustento
Aprendendo com os missionários
Os ofícios mais raros
As construções dos monumentos
Oficinas, escolas, igrejas
Cidades inteiras planejadas
Com jardins, ruas, calçadas
Com toda a infra-estrutura
Aquela grande família
De tudo um pouco aprendia
desde música à escultura
Mas para a infelicidade
Daquela gente inocente
Surgia de repente
O tratado de Madri
De Espanha e Portugal
Pra enxotar do torrão natal
Os nativos guaranis
Determinava o tratado
Da raposa e do leão
A troca de possessão
No maldito documento
Os nossos belos rincões
Os sete povos das missões
Pela Colônia de Sacramento
José Sepé Tiaraju
Valente cacique guerreiro
Pêlo duro missioneiro
Comandou a insurreição
Peleou de peito aberto
Contra o destino incerto
Em defesa deste chão
Lutou heroicamente
De arco, flechas e lançaços
Contra arcabuzes e canhonaços
De Castela e Lusitanos
Dia sete de fevereiro
Tombou morto no entrevero
A lança e bala dos tiranos
Na refrega que precedeu
O massacre de Caiboaté
Despediu-se São Sepé
Daquela terra tão rica
E o teu sangue guarani
Escorreu no Batovi
Às margens da sanga da bica
Numa nuvem de fumaça
Seguiu o facho de luz
Na companhia de Jesus
Para estância grande do céu
Bradando com entono
Esta terra tem dono
Foi dada por Deus e São Miguel
E os potentados do além-mar
Imbuídos pela ganância
Invadiram as estâncias
Para saquear nossas riquezas
Sanguinários desalmados
Que nunca foram julgados
Pelas terríveis proezas
Sepé partiu para o além
A duzentos e cinqüenta anos
Mas continua vivo lutando
Inspirando teus guerreiros
Clamando por liberdade
Igualdade e fraternidade
Aos povos do mundo inteiro.
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
Em mil setecentos e vinte e dois
Na redução de São Luís Gonzaga
Nascia naquelas plagas
Um bugrinho iluminado
Guarani de muita fé
Conhecido por Sepé
Que em guri foi adotado
Levado pra São Miguel
A vizinha redução
Para junto de teus irmãos
Naquela terra bendita
Onde foi catequizado
Educado e preparado
Pelos padres jesuítas
Ali vivia contente
Com teu povo irmanado
Cultivando lavoura e gado
Alimentos para o sustento
Aprendendo com os missionários
Os ofícios mais raros
As construções dos monumentos
Oficinas, escolas, igrejas
Cidades inteiras planejadas
Com jardins, ruas, calçadas
Com toda a infra-estrutura
Aquela grande família
De tudo um pouco aprendia
desde música à escultura
Mas para a infelicidade
Daquela gente inocente
Surgia de repente
O tratado de Madri
De Espanha e Portugal
Pra enxotar do torrão natal
Os nativos guaranis
Determinava o tratado
Da raposa e do leão
A troca de possessão
No maldito documento
Os nossos belos rincões
Os sete povos das missões
Pela Colônia de Sacramento
José Sepé Tiaraju
Valente cacique guerreiro
Pêlo duro missioneiro
Comandou a insurreição
Peleou de peito aberto
Contra o destino incerto
Em defesa deste chão
Lutou heroicamente
De arco, flechas e lançaços
Contra arcabuzes e canhonaços
De Castela e Lusitanos
Dia sete de fevereiro
Tombou morto no entrevero
A lança e bala dos tiranos
Na refrega que precedeu
O massacre de Caiboaté
Despediu-se São Sepé
Daquela terra tão rica
E o teu sangue guarani
Escorreu no Batovi
Às margens da sanga da bica
Numa nuvem de fumaça
Seguiu o facho de luz
Na companhia de Jesus
Para estância grande do céu
Bradando com entono
Esta terra tem dono
Foi dada por Deus e São Miguel
E os potentados do além-mar
Imbuídos pela ganância
Invadiram as estâncias
Para saquear nossas riquezas
Sanguinários desalmados
Que nunca foram julgados
Pelas terríveis proezas
Sepé partiu para o além
A duzentos e cinqüenta anos
Mas continua vivo lutando
Inspirando teus guerreiros
Clamando por liberdade
Igualdade e fraternidade
Aos povos do mundo inteiro.
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
MERCADO DEL PUERTO
Por Von Steisloff
Só vejo-te aos sábados. Quem sabe talvez seja essa a razão de que, cada vez que retorno a ver-te, fica em mim um desejo de sempre voltar. Nesse local o melhor que se sente é um reencontro sincero com um passado. Vejo-me ali, sem filtros ou lentes bondosas que eliminem minha insignificância de quem apenas é mais um que passa. Acomodo-me em um banco onde outros já se sentaram e nada sinto que possa modificar minha situação de passante. Sou mais um com a sublime ilusão de entender o presente e viver o doce momento que pertence ao passado. Quando retorno a ver-te, examino cada ponto, tentando captar um sinal que possa ser familiar. Tudo é fortemente passado e eu sou apenas o presente. Não consigo entender nada do local nem das pessoas que ali estão. São todas estranhas para mim. Sinto também que sou estranho para todos. Sorrio e procuro me embriagar com o vinho ácido que vou pedindo nos copos mal lavados. Tenho a impressão de que ali, todos procuram também um refúgio como eu. Por entre a multidão que se forma cada sábado, os tipos mais raros perambulam com seus copos, vão bebendo e olhando para quem também os olha.
Engano-me na bebida para que passem as horas e aproveito para estudar a estrutura de ferro centenária que sustenta o galpão imenso. Tudo parece tão distante no tempo, mas misteriosamente familiar. É um abrigo seguro de uma época invejada por mim. O mais que consigo é volver mentalmente na esperança de reviver imagens que nunca vi. Não consigo concentrar-me, pois sou chamado à realidade pela triste algazarra.
Vejo, pelos corredores sem luz, um desfile de expressões inteligíveis. Todos falam alto e, às vezes, por gestos, tentam se impor, pois a hora é feita para confessar aos amigos os sucessos e as amarguras da semana.
Minha visão turva-se e sinto-me feliz por estar ali junto aos miseráveis que me pedem para lhes comprar uma gilete que jamais usarei. O desfile continua com os aleijados de voz rouquenha. São três da tarde e o vinho corre solto e será pago pelo entusiasmo e sem qualquer reclamação. Os garçons mais vividos aproveitam para carregar na conta. Tudo noto, mas nem ligo. A euforia vai quase para o auge e os odores se misturam. Há uma convivência e tolerância promíscua entre o sujo e o limpo. Entre pobres e remediados. Uns comem sem reservas enquanto muitos pedem trocados para completar um lanche. É um frenesi de misturas onde uns são apenas pobres e outros alegremente infelizes. Encontro-me no centro de um fenômeno de galhofa nacional e do nanismo político que tanto mal faz a esse país. Aqui estão representados, o fausto do passado e a visão terrível do futuro. Ninguém percebe, ou não quer perceber a gravidade da rota escolhida. Toca pra frente. O melhor é pedir outro copo de vinho.
Volto minha vista para o teto pegado da fuligem dos anos. O imenso relógio de quatro faces parou nas onze horas de um dia qualquer. Por que todos também não levantam suas visitas entre um gole e outro, para refletir que o tempo parou? Será que só eu insisto nessa reflexão política? Parece que a vocação das massas é mesmo ser comandada por minorias audaciosas. Aqui e ali, ouço comentários sobre os acontecimentos esportivos ou coisas sem importância dessa espécie. Não fossem essas conversas, teria a impressão que o casarão seria de um silêncio religioso. Quase grito impaciente para que percebam no enegrecido teto as mensagens ali deixadas.
Se elevassem suas vistas, talvez suas almas fossem tocadas pela estética vigorosa da harmonia deliciosa e antiga. Olho enternecido para o cidadão que está ao meu lado. Nem percebe que o observo tal é o seu interesse pelo pedaço de churrasco à sua frente. Os grupos pelos balcões nem se dão conta da minha presença. Melhor assim. Fico sozinho com minhas reminiscências de um orgulho que caiu sem nunca ter lutado. Afinal, o que sou? Nem sou daqui.
Entristeço-me com esse covarde pensamento e chego mesmo a ficar um pouco envergonhado. Na realidade nunca me senti de parte alguma. Um pouco imaginativo, passo a considerar que eu poderia até mesmo julgar-me genuinamente integrante do país e de suas vergonhas. Sinto que se continuasse no vinho acabaria nas lágrimas. Eu não podia ficar estimulando uma posição de homem do mundo, com caráter internacional que eu realmente nunca assumiria. A mazela nacional pertence aos nacionais. É uma ferida que eles devem tratar. Isso sim é mais cômodo.
Venho ao local para sentir-me bem e acabo entristecendo-me. Minha sensibilidade e percepção traem este passante e fico ruminando problemas de outros. Recomponho-me e decido parar com as fantasias. Procuro justificar o espetáculo que vejo, mais com gozo de turista do que de um observador crítico e informado. Finalmente consigo encarar meu parceiro de balcão e arrisco um sorriso. Fenômeno! Ele reage e também sorri sem saber porquê. Deve ter me achado engraçado. Diante de tanta miséria alguém encontrar qualquer motivo para sorrir como eu fizera.
Na realidade estou mesmo feliz. Saio pelos corredores e procuro tocar de leve nas pessoas que entopem as passagens. Procuro sentir-me como um deles. Os acidentais contatos com suas roupas grossas e ásperas já os tenho acariciantes. Sintonizo melhor meu ouvido para inteirar-me das conversas. Julgo tudo tão normal. São alegres mesmo! O que eu via como miséria é parte de uma história que aos poucos vou entendendo. Minha curiosidade se aguça e passo a captar imagens e sons ignorados. Aquela algazarra era uma orquestra humana abafando os tambores do pessimismo. Eram palmas à vitória que têm como certa, embora distante. Estavam ali, como em todo fim-de-semana, numa espécie de culto a um quartel do civilismo. Na sua azáfama nem percebiam que o turista ingênuo invadia aquele templo pensando tratar-se de uma casa de folclore. Passo a compreender o estimulante que é o local e confesso-me integrado naquela festa semanal. A emoção é mais forte e abre em mim desejos de permanecer e nunca mais sair. Quedo-me perplexo diante daquela simbiose entre um pavilhão de ferro e um povo que o ama e precisa dele. Saio e, vagarosamente, volvo minha cabeça para rever sua silhueta vetusta. É por isso que prometo ver-te novamente, no próximo sábado, oh! meu “MERCADO DEL PUERTO”.
Montevidéu, 1982
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
Só vejo-te aos sábados. Quem sabe talvez seja essa a razão de que, cada vez que retorno a ver-te, fica em mim um desejo de sempre voltar. Nesse local o melhor que se sente é um reencontro sincero com um passado. Vejo-me ali, sem filtros ou lentes bondosas que eliminem minha insignificância de quem apenas é mais um que passa. Acomodo-me em um banco onde outros já se sentaram e nada sinto que possa modificar minha situação de passante. Sou mais um com a sublime ilusão de entender o presente e viver o doce momento que pertence ao passado. Quando retorno a ver-te, examino cada ponto, tentando captar um sinal que possa ser familiar. Tudo é fortemente passado e eu sou apenas o presente. Não consigo entender nada do local nem das pessoas que ali estão. São todas estranhas para mim. Sinto também que sou estranho para todos. Sorrio e procuro me embriagar com o vinho ácido que vou pedindo nos copos mal lavados. Tenho a impressão de que ali, todos procuram também um refúgio como eu. Por entre a multidão que se forma cada sábado, os tipos mais raros perambulam com seus copos, vão bebendo e olhando para quem também os olha.
Engano-me na bebida para que passem as horas e aproveito para estudar a estrutura de ferro centenária que sustenta o galpão imenso. Tudo parece tão distante no tempo, mas misteriosamente familiar. É um abrigo seguro de uma época invejada por mim. O mais que consigo é volver mentalmente na esperança de reviver imagens que nunca vi. Não consigo concentrar-me, pois sou chamado à realidade pela triste algazarra.
Vejo, pelos corredores sem luz, um desfile de expressões inteligíveis. Todos falam alto e, às vezes, por gestos, tentam se impor, pois a hora é feita para confessar aos amigos os sucessos e as amarguras da semana.
Minha visão turva-se e sinto-me feliz por estar ali junto aos miseráveis que me pedem para lhes comprar uma gilete que jamais usarei. O desfile continua com os aleijados de voz rouquenha. São três da tarde e o vinho corre solto e será pago pelo entusiasmo e sem qualquer reclamação. Os garçons mais vividos aproveitam para carregar na conta. Tudo noto, mas nem ligo. A euforia vai quase para o auge e os odores se misturam. Há uma convivência e tolerância promíscua entre o sujo e o limpo. Entre pobres e remediados. Uns comem sem reservas enquanto muitos pedem trocados para completar um lanche. É um frenesi de misturas onde uns são apenas pobres e outros alegremente infelizes. Encontro-me no centro de um fenômeno de galhofa nacional e do nanismo político que tanto mal faz a esse país. Aqui estão representados, o fausto do passado e a visão terrível do futuro. Ninguém percebe, ou não quer perceber a gravidade da rota escolhida. Toca pra frente. O melhor é pedir outro copo de vinho.
Volto minha vista para o teto pegado da fuligem dos anos. O imenso relógio de quatro faces parou nas onze horas de um dia qualquer. Por que todos também não levantam suas visitas entre um gole e outro, para refletir que o tempo parou? Será que só eu insisto nessa reflexão política? Parece que a vocação das massas é mesmo ser comandada por minorias audaciosas. Aqui e ali, ouço comentários sobre os acontecimentos esportivos ou coisas sem importância dessa espécie. Não fossem essas conversas, teria a impressão que o casarão seria de um silêncio religioso. Quase grito impaciente para que percebam no enegrecido teto as mensagens ali deixadas.
Se elevassem suas vistas, talvez suas almas fossem tocadas pela estética vigorosa da harmonia deliciosa e antiga. Olho enternecido para o cidadão que está ao meu lado. Nem percebe que o observo tal é o seu interesse pelo pedaço de churrasco à sua frente. Os grupos pelos balcões nem se dão conta da minha presença. Melhor assim. Fico sozinho com minhas reminiscências de um orgulho que caiu sem nunca ter lutado. Afinal, o que sou? Nem sou daqui.
Entristeço-me com esse covarde pensamento e chego mesmo a ficar um pouco envergonhado. Na realidade nunca me senti de parte alguma. Um pouco imaginativo, passo a considerar que eu poderia até mesmo julgar-me genuinamente integrante do país e de suas vergonhas. Sinto que se continuasse no vinho acabaria nas lágrimas. Eu não podia ficar estimulando uma posição de homem do mundo, com caráter internacional que eu realmente nunca assumiria. A mazela nacional pertence aos nacionais. É uma ferida que eles devem tratar. Isso sim é mais cômodo.
Venho ao local para sentir-me bem e acabo entristecendo-me. Minha sensibilidade e percepção traem este passante e fico ruminando problemas de outros. Recomponho-me e decido parar com as fantasias. Procuro justificar o espetáculo que vejo, mais com gozo de turista do que de um observador crítico e informado. Finalmente consigo encarar meu parceiro de balcão e arrisco um sorriso. Fenômeno! Ele reage e também sorri sem saber porquê. Deve ter me achado engraçado. Diante de tanta miséria alguém encontrar qualquer motivo para sorrir como eu fizera.
Na realidade estou mesmo feliz. Saio pelos corredores e procuro tocar de leve nas pessoas que entopem as passagens. Procuro sentir-me como um deles. Os acidentais contatos com suas roupas grossas e ásperas já os tenho acariciantes. Sintonizo melhor meu ouvido para inteirar-me das conversas. Julgo tudo tão normal. São alegres mesmo! O que eu via como miséria é parte de uma história que aos poucos vou entendendo. Minha curiosidade se aguça e passo a captar imagens e sons ignorados. Aquela algazarra era uma orquestra humana abafando os tambores do pessimismo. Eram palmas à vitória que têm como certa, embora distante. Estavam ali, como em todo fim-de-semana, numa espécie de culto a um quartel do civilismo. Na sua azáfama nem percebiam que o turista ingênuo invadia aquele templo pensando tratar-se de uma casa de folclore. Passo a compreender o estimulante que é o local e confesso-me integrado naquela festa semanal. A emoção é mais forte e abre em mim desejos de permanecer e nunca mais sair. Quedo-me perplexo diante daquela simbiose entre um pavilhão de ferro e um povo que o ama e precisa dele. Saio e, vagarosamente, volvo minha cabeça para rever sua silhueta vetusta. É por isso que prometo ver-te novamente, no próximo sábado, oh! meu “MERCADO DEL PUERTO”.
Montevidéu, 1982
(Publicado originalmente na Revista CERRADO CULTURAL nº 08/2008)
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