PAROLE: A MULHER DRAGÃO (1ª PARTE)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

‘’Quando bater na minha porta...

 Quando me pedir...

...para ser sua!

É amor? É desejo?

Amor doce

Doce amor correspondido

Soa como um grito.

Meu amor, como em um conto,

Mas é pura realidade.’’  

Patrícia Raphael

 

Elas atravessaram a via, movimentada, como se fossem duas crianças travessas. Caminhavam de mãos dadas, parecia que não se importavam com os olhares furtivos de reprovação, de alguns transeuntes, que apreciavam a cena matinal. Uma tinha a pele alvíssima, de quem raramente experimentava ver a luz do dia. De cabelos louros bem curtos, seios fartos, olhos vívidos e verdes e uma pequena tatuagem verde, no pulso esquerdo, ladeado de duas estrelas da mesma cor. Estava escrito em fonte manuscrita e em itálico: Agnes. Usava um vestido floral visco, usava uma delicada tiara artesanal amarela na cabeça, calçava sapatilhas Ires florida e seu rosto não possuía maquiagem alguma. Apesar de estar na meia idade, ainda mantinha o frescor primaveril, de quem estava descobrindo a vida naquele exato momento.       

A outra mulher ao lado, era a antítese da outra, com a pele amendoada, seios pequenos, cabelos longos, negros e finos, que iam até a cintura, olhos castanhos claros e ligeiramente puxados, o rosto levemente maquiado. Ela possuía também uma tatuagem tribal colorida que começava no ombro esquerdo que ia até o cotovelo e vestia nos pés, um sapato Poeme floral. Usava um par de brincos feitos de penas sintéticas coloridas, que imitavam a pena de pavão. E estampava um sorriso radiante, no seu belo rosto, que denunciava os seus vinte anos de idade. Usava um vestido esvoaçante, vaporoso, transparente e muito colorido.

 As duas mulheres, tomaram o caminho do Bar-café Garibaldi, não muito longe de onde as duas moravam. Caminhavam sem muita pressa, como se o tempo estivesse ali, então somente para servi-las. Alcançaram o Bar-café Garibaldi rapidamente, e lá defrontaram a seguinte cena. O recinto estava quase vazio naquele começo de manhã de sol outonal, havia ali poucos frequentadores. Na parede dos fundos do recinto, réplicas dos quadros de Salvador Dali, Picasso e Matisse que pareciam querer brigar entre si. Assim como o cardápio em português brasileiro, espanhol europeu e em inglês britânico, publicado na parede lateral esquerda do recinto, e distribuído nas mesas. As cores: vermelha, verde e branca, em diferentes tons, reinavam de forma absolutas, em toda parte, estavam presentes do teto até o piso. As mesas metálicas, contrastavam com as sofisticadas cadeiras de plástico. Uma caixa registradora antiga, estava em destaque no balcão, uma peça genuína e decorativa, pois não funcionava há anos. Havia também um pequeno grupo de jovens funcionários, todos e todas, devidamente uniformizados, sonolentos e apáticos, eles e elas estavam sentados, em um silêncio absoluto, atrás do balcão a esperar da clientela. Na cozinha, o barulho alto de risadas parecia não incomodar ninguém, que ali estava. No canto direito, havia uma moderna jukebox, tocava um sucesso ocasional e descartável do momento, em volume bem baixo.

Quando as duas ‘’criaturas’’, adentraram de mãos dadas, porta adentro, os frequentadores habituais, fizeram cara de muxoxo. Já os clientes acidentais, pouco se importaram com a presença das duas ‘’criaturas’’, que chegaram uns minutos antes da duas. Então a morena, de pele amendoada, desfilou de forma sensual, foi até o fundo do Bar-café Garibaldi, colocou uma nota na jukebox, chamando atenção de todos para si, até mesmo do pequeno grupo de jovens funcionários. A morena, delicadamente, dedilhou alguns números na tecla da máquina, não disfarçando a impaciência de quem procurava alguma coisa, mas não encontrava. Então a máquina, passou a reproduzir um sucesso obscuro, uma música romântica antiga e cantada em francês, para alegria da morena que nessa hora, era toda sorrisos. A música, era executada bem alto e tomou conta do lugar por inteiro. A teuta, ficou parada na porta, apreciando os trejeitos da amiga, ela procurava se conte, mas em vão, um pequeno sorriso que brotou na face da loura. A morena, era só sorriso, enquanto retornava à porta de entrada. As duas, se entreolharam e decidiram de comum acordo tácito, ocupar uma mesa perto da porta de entrada. Então se sentaram e aguardaram para serem atendidas e servidas.

E lá fora carros, ônibus, motocicletas, carroças, bicicletas e transeuntes desavisados, circulavam na via rápida, estavam alheios ao que ocorria dentro do Bar-café Garibaldi. Na embaúba, que cresceu ao lado esquerdo do Bar-café Garibaldi, onde o Bem-te-vi fêmea fizera o seu ninho, um pouco acima dos fios de alta tensão. O pássaro silvestre, alimentava as suas duas crias, nascidas há poucos dias. Elas estavam famintas, naquele começo de manhã de sol outonal. Também estavam alheios de tudo e de todos, seguiam as suas existências primitivas, sem se importar com nada, para além das suas próprias existências selvagens.

Fragmento do livro: A casa de teto verde, de Samuel da Costa, contista, cronista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.

 

OPERA MUNDI: O CLUBE DOS ASSASSINOS (1ª PARTE)

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

‘’Mesmo com o coração machucado,

Escrevo, escrevo porque preciso

Preciso nutrir a minh’alma.’’

Fabiane Braga Lima

 

            Omar estava cansado, fartamente cansado, pois fazia tempo que um sentimento devastadoramente ruim, o atingira no seu âmago mais que profundo. Não era vergonha, muito menos culpa, não eram antigas dívidas, lhe cobrando as suas contas. Era algo bem pior, era uma infâmia, um opróbrio, algo aterrador, que circundava o bem-sucedido empresário nonagenário. O homem idoso e muito rico, se angustiava e debatia em si, em perdidas horas impróprias.

            Naquele início de manhã outonal, Omar abriu os olhos e fixou o olhar turvo, para cima, estou vivo, disse o angustiado Omar para si mesmo. E ele sentiu uma presença perturbadora, ele ergueu a cabeça lentamente e procurou em volta algo, no amplo quarto de dormir. O homem idoso, não procurava alguém, sim algo, alguma coisa e lá estava o que tanto procurava, que estava afastada do pé da cama.

           Era uma criança pequena, uma menina magérrima, de braços mirrados, lábios finos, os fundos e vazios olhos amarelos rasgados. O olhar, parecia de uma juíza severa e cruel, a condenar Omar, a uma pena longa, no pior das masmorras. A pequena menina alva, de leves vestes alabastrinas, com ares de nobreza, traços negroides, longos e lisos cabelos brancos, dentes nevados e serrados à mostra, em um sorriso tétrico, lhe davam uma aparência alienígena. A menina usava uma suntuosa bata cerimonial, intercalado com detalhes em temas africanos e a indumentária lhe cobriam do pescoço aos pés. Os delicados colares no pescoço, ricamente ornados, pareciam vir de outra realidade, de um outro plano astral.  

            A criança pequena sorrindo, lentamente se deslocou ao lado da cama e alcançou a cabeceira da cama, ela chacoalhava as pulseiras de marfim e foi com dificuldades que Omar percebeu que ela flutuava. Aterrado e paralisado em retrospectiva que iam a viam, Omar via a criança chegar mais e mais perto. O nonagenário, tentou fechar os olhos, não conseguiu e tentou pedir ajuda e não conseguiu. A menina, chegou bem perto e ao pé do ouvido de Omar e ela sussurrou em um idioma desconhecido, era um som alto, melodioso, metálico e cheio de ira, que não eram terrenos.

            O som alto e estridente, acordou o rico empresário, apavorado Omar levou a mão direita ao lado, procurando a esposa e encontrou o vazio, pois Matilde, a companheira da vida toda, de Omar, havia falecido há décadas. Omar fechou os olhos e dormiu novamente, era um sono profundo e permeado por pesadelos atrozes, em lugares perdidos, desolados e inóspitos cenários abissais extraterrestres.         

         E foi assim, se passaram as manhãs de Omar, foram dias, meses e anos em um ciclo que parecia não ter fim.

 

Fragmento do livro: Em perpétuos ciclos, por Samuel da Costa, novelista, poeta e contista em Itajaí, Santa Catarina.

 

YERUTI

Por Edgar Lorenzo Rojas (Assunção, Paraguai)

A DENTADURA VOADORA QUE FOI PARA O BELELÉU

Por Valéria A Gurgel (Nova Lima, MG)


Fim de tarde, muito calor, quase 38 graus e ameaças de tempestades.

Ponto de ônibus lotado! Na dura volta para casa em plena sexta feira, exatamente na hora de pico! Dezessete horas e quinze minutos. Cíntia havia matado a última aula de português. Queria chegar mais cedo em casa para sair com seu namorado, o Fred. Queriam ir juntos ao aniversário de um colega.

Mas parecia naquele dia, que todas as pessoas haviam saído de casa e tentavam voltar ao mesmo tempo e todas dentro daquele mesmo coletivo, velho, que exalava um forte odor de borracha e combustível queimados

Depois de uma dura espera de mais de quarenta minutos na fila, enfim a porta se abriu e o trocador tentava controlar o empurra-empurra na incansável disputa por um lugar na janela, não ao sol!

A jovem com uma gigantesca mochila nas costas, esperta e acostumada passar por aquela aventura todos os dias, não se importava em ser quase triturada naquele coletivo que mais parecia uma máquina de espremer carne humana.

Assim, depois de alguns minutos torturantes, ela conseguiu se sentar bem lá atrás! E ainda dividia o lugar no banco ao lado, com uma mulher com três crianças pequenas sentadas uma em cada um de seus joelhos e um bebezinho no colo. A mulher carregava uma bolsa enorme que entornava um caldo insuportavelmente podre, parecia ser de peixe! E ainda tentava amamentar o bebê! O pobre estava todo coberto por um manto azul, e com roupas de lã azul e branco parecia mais uma bandeira do Cruzeiro!

Não dava para entender como aquele indefeso ser, ainda conseguia respirar com aquele calor infernal dentro do ônibus. E o pobrezinho envolto a tantas roupas inalando um forte odor que a mulher trazia escondido embaixo de seus sovacos!

Mal o coletivo deu partida, já parava no sinal vermelho e podia-se ouvir a galera gritando aflita:

-Vão motô! Anda depressa e não pára mais não! Pois não cabe mais ninguém nessa espelunca!

Mas, infelizmente, ele devia cumprir ordens da empresa e a cada ponto que parava, subia dez e descia um! A coisa foi ficando feia e naquele anda pára, pára anda, sobe e desce, e desce e sobe, eis que entrou uma senhora idosa, bem velhinha que foi logo encarando a Cíntia! Intimidando-a com os olhos, à ceder o seu mísero lugar ao sol! Direito do idoso claro!

E a pobre jovem já nem sabia mais dizer se era melhor sentada, que de pé! Nem pensou, quando pôde perceber que a idosa já entrou no busão, completamente pálida, quase verde e prestes a desmaiar de tanto calor, foi logo dizendo:

- Minha senhora, -disse ela educadamente - Senta aqui! -Logo foi aquela confusão para a outra passageira se levantar da poltrona do corredor, para Cíntia sair e poder dar o lugar para a idosa.

Foi cutucão de guarda-chuva, lambada de bolsa de plástico, caldo de peixe escorrendo em seu tênis branco, menino entornado refrigerante no banco do ônibus e picolé de uva derretendo no seu cabelo... E seguia o coletivo pelas avenidas da grande capital...

Quando o veículo pegou um pequeno trecho de estrada de terra, e tudo começou a sacudir, a pobre idosa, num gesto abrupto, abriu a janela de uma vez entrando uma fumaça de poeira que todos se engasgaram! E numa ânsia de vômitos ela “chamou o Juca” pela janela! Começou a vomitar, a pobre senhora!

Mas o pior estava por vir... a sua dentadura saiu voando pelos ares!

E a coitada, começou a gritar:

- Socorro!!! Socoooorrro!!! Parem o ônibus! Parem o ônibus!!! Por favor!

Mas, ninguém sabia ao certo o que estava acontecendo! Todos apavorados, estavam pensando que alguém ali dentro tinha sofrido um piripaque no coração! O motorista então parou e perguntou:

- O que está acontecendo aí atrás? - A velhinha apavorada dizia chorando:

- A minha dentadura, senhor, voou pela janela!

Foi aquela rizaria dentro do ônibus! E ela desceu desesperada para procurar! Procurava daqui... Procurava dali... Procurava de lá, procurava acolá... E nada de encontrar a sua dentadura! O povo começou a reclamar:

- Vamos embora motô! Que eu tô com fome!

- Hoje é sexta feira, motô, bora ai, cara!

- Tenho que tomar a minha loura gelada logo mais!

- Bora aí, motô! Se demorar ai parado eu perco o meu segundo ônibus para chegar em casa!

E a confusão se instalou dentro daquele ônibus! Muitos com pena, resolveram descer para ajudá-la a procurar a dentadura que havia desaparecido no meio do mato!

Começava a escurecer e nada da dentadura aparecer! Como a situação ficava cada vez pior com o povo xingando, crianças chorando... Cíntia desceu também para ajudar encontrar a dentadura de Dona Maria Balbina.

Depois de quase meia hora parados no meio do mato daquela estrada de terra, a jovem encontrou a dentadura daquela senhora, caída no meio de uma poça d’água suja! Muito agradecida, dona Maria entrou no ônibus, mas não tinha coragem de colocar de volta a dentadura suja na boca!

O veículo seguiu viagem e chegou ao seu destino.

Para surpresa de Cíntia, seu namorado estava esperando-a no ponto final.

Ela muito constrangida pelo atraso e pela sujeira em que estava por ter caminhado no meio do barro à procura da dentadura da dona Maria Balbina foi logo se justificando! Mas na verdade, o seu namorado estava preocupado era com a avó dele, que havia saído cedo para ir ao médico e ainda não havia voltado! Para seu espanto ela veio a descobrir que a Dona Maria Balbina era a avó de seu namorado! Então, eles resolveram acompanhá-la até a casa que morava.

Lá chegando, Dona Maria lavou a dentadura. Lavou... Lavou... Passou água sanitária, vinagre, ferveu com detergente e bicarbonato, pois ficou com muito nojo do que acontecera!

Mas ela só não esperava que sua dentadura depois de passar por tantos processos de higienização e fervura, pudesse entortar!

Não conseguia mais encaixar a prótese dentro da boca! Quanto mais insistia, mais vômito fazia! Até que correu para o banheiro e... vlópt!!! A dentadura desceu por água abaixo no vaso sanitário e foi para o beleléu!

 

O MISTÉRIO DO PADRE ISIDORO

Por Valéria A Gurgel (Nova Lima, MG)

 

Não era nem cinco horas da manhã e o sino da capela da pacata cidadezinha do interior das Minas Gerais, já tocava intermitentemente, causando certo desconforto em padre Isidoro, que era obrigado a se levantar, com o frio da madrugada, para conferir se realmente o sino da igreja estava tocando à uma hora daquela?!

Ele acordava com o tinido estridente, dos dois velhos e pesados sinos de bronze, envelhecidos pelos quase duzentos anos de existência. Parava para ouvir e nada! Então o velho pároco, acordava o ermitão para saber se ele também havia escutado os sinos tocando. Mas ele afirmava não estar ouvindo nada. Um silêncio medonho se fazia. Logo que o padre ia se deitar e vestia novamente seu camisolão branco, suas meias e sua touca de lã, retirando os seus óculos e...

Novamente os sinos soavam e logo em seguida, paravam! Isso prevaleceu por vários dias e noites seguidas e no fim de quase um mês, um fato curioso começou também a acontecer por ali. Eis que as hóstias da sacristia e o vinho, estavam desaparecendo, causando tamanho embaraço para o padre e o ermitão que se tornaram os principais suspeitos de estar consumindo o corpo e o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo em hora indevida, fora dos rituais da igreja.

Como não conseguiam mais dormir direito, eles bocejavam o tempo inteiro durante as missas. Todos imaginavam que estavam fazendo festinhas às escondidas nos fundos da sacristia, a altas horas da madrugada e se embebedando de vinho! Todo esse equívoco, se agravou ainda mais quando as beatas das redondezas começaram a fazer fila na porta da igreja, em plena madrugada, para não mais correrem o risco de ficar sem a comunhão, visto que as hóstias agora, nunca davam para ser repartidas com todos os fiéis na hora do ofertório. E o velho padre ficava ainda mais constrangido.

Já insatisfeito e muito intrigado com aquele mistério que rondava a sua paróquia, padre Isidoro, resolveu convocar todos os fiéis para uma reunião extraordinária na igreja. Tentando descobrir o que poderia estar ocorrendo e explicar às senhoras religiosas, que não mais precisavam chegar tão cedo à igreja, pois ele ia pedir para as freiras do convento, aumentar a fabricação das hóstias e do vinho!

Mas as beatas afirmavam que ouviam os sinos tocando de madrugada e a cada dia mais cedo, imaginavam que era o padre que estava chamando a todos, para a missa, em horas inconvenientes. Teve uma que confirmou ter ouvido os sinos soando em plena três horas da madrugada, chamando os fiéis para rezar!

O padre, completamente transtornado, suspeitou que pudesse ter alguém escondido nos fundos da sacristia, querendo fazer uma brincadeira de mau gosto com todos. Assim, ele pediu ao coronel Camargo, que falasse com o xerife, para enviar alguns dos seus soldados para dar uma busca e tentar desvendar todo aquele mistério. Porém, nada fora encontrado e a situação foi ficando caótica por ali quando se espalhou a notícia de que a igreja do padre Isidoro era mal-assombrada e que estava possuída por um espírito maligno!

Por fim, nem o próprio padre e nem o ermitão queriam mais dormir ou entrar na igreja.

E as missas, as confissões, as novenas, as quermesses, as procissões, os casamentos, os batizados, as coroações e até as missas de corpo presente, foram todos os rituais sagrados, canceladas sem previsão de quando voltariam a acontecer. Também, a limpeza da igreja. Pois nem as beatas queriam lá entrar com medo do que podiam ver!

E a vida dos moradores passou a se tornar monótona e sem graça, visto que o único movimento que se via por ali se resumia dentro e aos arredores da igreja. O coronel da cidadezinha, muito nervoso com aquela história que já estava repercutindo pelas redondezas e sendo motivos de críticas e deboches por parte dos religiosos de outras crenças e até mesmo pelos fiéis de outras comunidades, resolveu levar ao conhecimento do bispo que ordenou que enviassem um padre exorcista para resolver o problema!

Foram meses de muito suspense e desgosto naquela cidade, até que o padre exorcista chegou. Ele veio de longe, para pôr fim de vez naquela história estranha e mal explicada. Mas infelizmente, nada adiantou! Então, o coronel Camargo, decretou que viessem os pais de santo, o benzedeiro de todos os terreiros para resolver o problema e a guerra se instalou na cidade. Depois de meses de brigas, bate bocas, revoltas, manifestações de diversas formas, como gente fazendo jejuns e desmaiando na porta da igreja, carregando cruzes pelas ruelas da pacata cidadezinha, mulheres depositando flores e velas pelas escadarias da porta da pequena capela, crucifixos pregados por todos os lados, gente jogando sal e água benta aos arredores e beatas vestidas de preto em protesto; enfim, o mistério foi desvendado!

Os fiéis, o padre, o ermitão, o coronel e o xerife juntamente com os seus seis soldados, da velha delegacia, não mais suportando aquela situação pavorosa em que se transformou a cidade; que antes pacata, agora se tornara uma das mais agitadas da região, decidiram tomar coragem e subir até o campanário para ver se tinha alguém escondido por lá. Visto que misteriosamente, o sino tocava estridentemente em plena duas horas da manhã!

E eis que descobriram uma família de macacos prego fazendo uma tremenda algazarra, se balançando nas cordas dos dois sinos, comendo as hóstias e bebendo do vinho da igreja. Colocando assim um ponto final naquela história fantasmagórica que mexeu com a cabeça de todos os moradores.

O único problema é que depois do ocorrido, padre Isidoro, não conseguia mais espantar aquela família ousada que sempre que ouvia os sinos da igreja tocando, vinha todos, correndo para a igreja!

A mãe, o pai e os três filhotes, assentavam-se no primeiro banco da capela, bem à frente na primeira fileira, assistiam a missa e na hora da comunhão, ficavam à espera do pão e do vinho que já estavam viciados a beber!

 

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SOCOOOOOOOORRO!!! O DEFUNTO SE LEVANTOU!

Por Valéria A Gurgel (Nova Lima, MG)


Numa cidadezinha pacata, no interior das Minas Gerais, tão logo o dia começava a clarear, o pároco da pequena igrejinha local ligava seu ruidoso megafone instalado no alto da torre. As paredes que sustentavam aquele aparato antigo, eram de pedras encardidas de mofo e estavam bastante obstruídas pelo tempo. As paredes da capelinha pintadas de amarelo fosco e portas de madeira tosca, azul grená.

Padre Juvenil seguia mais de meia hora, todas as manhãs regulando o volume do megafone para então, anunciar a lista dos falecimentos da madrugada. E lá naquele caderno amarelecido, estava escrito o nome do Sr. Eteovaldo, mais conhecido como Zé Cuberta.

O Zé ganhara esse apelido inusitado pela velha mania de sair caminhando pelas ruelas geladas e escuras daquele, digamos, vilarejo, enrolado em um velho cobertor, deixando somente os olhos e o nariz de fora, para se proteger do frio estarrecedor dos períodos de inverno, ano pós ano por ali.

O carismático padre, já bastante idoso e quase careca, com seu par de óculos de fundo de garrafa, caído sobre o afilado nariz, punha para tocar uma musiquinha fúnebre, conhecida como “O silêncio”, para provocar aquela nostálgica tristeza local.

Depois de deixar a música tocar por alguns minutos e comover a população, ele começava a ler a relação dos nomes dos mortos.

- Nota de falecimento e convite! A família do senhor, Eteovaldo Pereira da Silva, mais conhecido como Zé Cuberta, informa aos parentes e amigos o seu falecimento ocorrido ontem e convida para o seu sepultamento a realizar-se hoje às dez horas no Cemitério local. O velório se realizará à rua Tocantins número 147, bairro Morro Velho.

Voltamos a informar o falecimento do senhor Eteovaldo…

Mas ninguém ainda imaginava o que tinha acontecido por volta das cinco e meia da madrugada, na casa do falecido e que depois do ocorrido, aquele lugar nunca mais seria o mesmo!!!

Dona Geni, acordou por volta das dez e trinta da noite, desesperada, ao sentir que o seu marido estava gelado, intacto, de olhos abertos e bem arregalados por sinal, rijo, espichado de barriga para cima, na cama, bem do seu lado!

Ela não se conteve e se pôs a gritar! Tão logo a velha casa de esquina encheu-se de gente! Todos vieram para acudir o homem! Mas fora em vão. Morrera dormindo, aquele pobre cristão!

A recente viúva, após confirmar a morte repentina do marido, pediu a um moleque, filho do verdureiro, para correr até a casa paroquial para o Padre Juvenil ir encomendar a alma do falecido, mas ele não o atendeu.

Naquela época e ainda se tratando de uma cidadezinha muito pobre e sem recursos, era de praxe os próprios vizinhos dar banho, secar, vestir e arrumar o defunto em casa mesmo. Enquanto a família do enlutado ficava à espera do caixão, que sempre demorava chegar, porque vinha de outra cidade a alguns quilômetros.

Sendo assim, o velório transcorria com o morto deitado em uma cama de solteiro, coberto por um lençol branco e arrastada para o centro da sala de visitas. Até que amanhecesse e algum conhecido pudesse ir até a funerária da cidade mais próxima, buscar a urna, o véu e uma coroa de flores, com uma modesta faixa preta escrita assim: “Funenária Santa Maria, a sua morte é a nossa alegria. Uuuppss!!! Nossa melancolia, quis dizer!

Não havia evento mais divertido para os homens da região, pois conseguiam um pretexto para sair de casa à noite e passar a madrugada bebendo o defunto e falando pelos cotovelos.

Era por volta das quatro e meia da madrugada, os parentes já dormiam recostados pelos cantos da casa, três homens, encostados no parapeito de uma pequena janela de madeira tosca, jogavam cartas e bebiam cachaça para espantar o frio que apertava. Quando um pergunta bem cismado para o outro:

- Você não viu? Parece que o Zé se mexeu!!! - Cê tá variando, cumpade Piriá! O Zé tá morto e geladim, coitado! - Comentou o Compadre Juquinha. - Cê bebeu demais e tá ficando doido, home?!

- Bebi não, cumpade Manél! Eu juro que vi o defunto se mexê debaixo do lençor! - Resmungou o homem, cabreiro, cuspindo um pedaço de fumo mascado.

Um clima tenso se fez. Lá pelas cinco e meia da manhã, já quase com o dia clareando, um gemido confundido com ronco fez com que os três homens se entreolhassem e parassem de gritar truco, para ouvir. Mas não era nada! O defunto continuava lá, estirado sobre a cama! E eles seguiram, jogando cartas e bebendo cachaça para esquentar.

Inesperadamente, aquela cama fez um barulho estranho! Parecia se ranger com o peso do corpo. Parecia reclamar e avisar que alguém estava se mexendo...

O Zé descobriu-se do lençol, de uma só vez, levantando-se e perguntando:

- Ocêis tão me oiando por causa de quê? Onde está a minha cuberta?

Vão me servir uma dose da marvada aí, ou nu vão? Tá um frio excomungado hoje! Tô inté achando que morreu o capeta mais veio do inferno!

Os três homens, sendo um deles perneta, saltaram pela minúscula e única janela daquela sala ao mesmo tempo!

Foi por muito pouco que aquele pobre homem era sepultado vivo! Depois do incidente ocorrido, dizem que ele foi tido como morto e acordou mais duas vezes! Numa delas, chegou a ter cortejo fúnebre, mas, o próprio defunto foi caminhando, enrolado em sua coberta, até que todos perceberam que carregavam um caixão vazio!

Nem mais o Padre acreditava nos prenúncios de falecimento do Zé Cuberta e não mais aceitou anunciar as suas supostas mortes em seu megafone.

Assim, quando morreu enfim, de vez, o pobre cortês, ninguém das redondezas foi velá-lo!

Da quarta vez, ele morreu mesmo, enfim! Mas Padre Juvenil, muito sem fé, se negou a dar a encomendação da alma do falecido.

Até hoje, ele não se levantou de sua tumba, nem se despertou para assustar ninguém. Mas, ainda assim, há quem passe em frente o cemitério e diz ver o Zé Cuberta sentado em cima do muro, puxando um trago em seu cigarrinho de palha, baforando fumaça pelas ventas, enrolado em seu velho cobertor sujo de terra, dando risadas, com seus dois únicos dentes cariados e pedindo com o velho gesto dos dedos, uma dose da branquinha!

 

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A PESSOA IDOSA E OS JOGOS DE AZAR

Por Paulo Cezar S. Ventura (Nova Lima, MG)

 

Em tempos de má distribuição de renda o jogo vira uma pandemia. E a pessoa idosa é mais uma vítima.

Vivendo e aprendendo a jogar
Nem sempre ganhando
Nem sempre perdendo
Mas aprendendo a jogar.
(Guilherme Arantes)

Estive no Correio de minha cidade para usar sua prestação de serviços de transporte de mercadorias. Sou frequentador assíduo, felizmente, pois por ali viajam meus livros para os queridos leitores. De repente, o funcionário me oferece um tipo de jogo, registrado e patrocinado pela Empresa de Correios e Telégrafos (ECT).

Eu respondo: como posso fazer uma militância política em prol de uma melhor distribuição de renda e apostar em um sistema que tira dinheiro de muitos e entrega a uns poucos? E quem ganha são exatamente aqueles que podem apostar muito.

Desculpe-me, Sr. Arantes, apesar do sucesso de sua música, que teve como uma de suas intérpretes a fabulosa Elis Regina, nem sempre se aprende a jogar. Na maioria dos casos vicia-se em jogar. Em tempos de má distribuição de renda e de uma grande faixa da população na pobreza, o jogo vira uma epidemia. Melhor dizendo, uma pandemia, pois o vício se espalha pelo mundo. E, mais uma vez, pessoas idosas são vítimas, vulneráveis.

Sete anos depois da decretação de legalidade das apostas online no Brasil, a quantidade de casas de apostas aumentou consideravelmente e o Brasil já é o segundo país do mundo em número de apostadores e de volume de dinheiro consumido em apostas. Imagino que muitos de nós conhecemos pessoas que estão se perdendo no vício de apostas. Irei relatar um caso que muito me chocou.

Dona Geralda (nome fictício por razões óbvias) é uma pessoa de minha vizinhança, dona de um belo sorriso e muita alegria. Ou melhor, era. Perdeu a alegria e o sorriso em consequência. Pessoa idosa, com uns sessenta e cinco anos, vivia em uma casa pequena na periferia da cidade. Moradora de uma daquelas três ou quatro casas construídas em um mesmo lote. Os filhos, já maduros, não eram visitas frequentes. Tinha um grupo de amigas, colegas das rezas e novenas, vivendo, portanto, em uma bolha de contatos.

Seu salário de aposentada era bem controlado, apenas o suficiente para sobreviver, sendo impossível se regalar com passeios, roupas melhores, jantar fora de casa, entre outros regalos. Vivia em sua bolha de grupos de WhatsApp, vítima das falsas notícias e das publicidades televisivas que contribuem para a degeneração mental dos telespectadores.

Foi no intervalo da novela que ela assistiu vários ídolos dos esportes e aquele famoso locutor anunciar: profetiza, mas com moderação. Ela não se conteve: quem sabe estava ali a saída de sua vida miserável? Quem sabe ela não poderia fazer parte daquele grupo de pessoas felizes e sorridentes que a televisão mostra nos enredos das novelas e nos intervalos para publicidade?

Pegou seu aparelho de telefone, usou o leitor do código que aparecia na tela e entrou naquele universo fantástico dos jogos. Bastavam uns cliques em seu aparelho de telefone, uma de suas amigas, “entendida” em internet a ajudou nos primeiros acessos e logo, logo, estava participando dos jogos. Era também uma bela maneira de se conectar com seu time de futebol de coração. E como ganhou um bom dinheiro da primeira vez, continuou jogando.

Os jogos de futebol são mais espaçados, mas a plataforma apresentava outras possibilidades. De repente, ela tinha uma Las Vegas inteira em seu pequeno aparelho celular. A vida vai melhorar, ah como vai!

E Dona Geralda se acostumou, se apaixonou, se viciou. Como compensar as perdas acumuladas? “Nem sempre ganhando”, quase sempre perdendo, não aprendeu a jogar. Mas a adrenalina do jogo, aquela sensação de poder ganhar, “agora vai”, ela nunca teve em sua vida de empregada de serviços gerais nas empresas em que trabalhou.

Aos poucos foi se endividando, aos poucos foi vendendo o pouco que tinha, de repente perdeu a casa, de repente quase perdeu a vida. A dose de veneno de rato que ingeriu não foi suficiente para suprimir sua vida, mas a deixou em péssimas condições de saúde. Os filhos não tiveram condições de socorrê-la, mas conseguiram, com uma ação judicial, que Dona Geralda fosse recolhida por uma ILPI onde, pelo menos, estava acolhida por profissionais.

Infelizmente, esse é o jogo, aquele que apaga a luz dos olhos das pessoas, algumas nem tanto idosas, antes da hora. A vida pode ser também cenário para os Jogos Mortais. Neste caso ela é cruel, pois não se conhece as regras. Em jogos de “vale tudo” não se aprende a jogar. No entanto, é uma questão de escolha. Façamos a escolha certa: não jogar.

“O envelhecer é uma maratona dura. Requer foco, disciplina, amor-próprio, treino mental, treino físico e espiritual.

Mesmo sabendo que na reta final ninguém vai subir ao pódio, temos que dar o nosso melhor, porque a velhice é sobre o processo e não sobre o findar a jornada”.


(Cláudia S Franco)