A CRIANÇA E A ORAÇÃO

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Em “ Mistérios de Fafe”, Camilo, o maior prosador de língua portuguesa, descreve magistralmente o diálogo travado entre Rosa, filha de rendeiro de terras, mas educada, desde menina, por fidalga, sua madrinha, e o marido, rústico espingardeiro de Guimarães.
Escreve Camilo, que Rosa, lamentava-se que a sogra, muito beata, obrigava-a a permanecer horas afio diante do santuário de pau-preto, tonta de sono, em continuas rezas, que lhe deixavam os joelhos numa lástima.
O marido, ouvia-a atentamente, e no íntimo dava-lhe razão, mas não era capaz de advertir a velha, sua mãe.
Muitos, mormente na minha juventude, encaminhavam as crianças, para missas enfadonhas, que nada lhes diziam, e obrigavam-nas a rezarem o rosário ou terço, seguidos de litanias infindáveis.
Ora a oração não é um dever, e menos ainda obrigação, mas conversa com Deus, que deve ser franca, simples e alegre.
Não devem ser obrigadas a rezarem orações estereotipadas, que contêm palavras, cujo significado desconhecem.
Basta que saibam o Pai-Nosso e a Avé- Maria e pouco mais, e que as recitem ao deitar e levantar.
Dizia e bem, a filha do Conde Drost Zu Vischering, Clemente Haidenreich, a beata Irmã Maria, que viveu e faleceu na cidade do Porto, que cantar e andar sempre com o pensamento em Deus, já é rezar.
Cantemos com os jovens cânticos alegres, que os incitem a procurar o Senhor.
O bom costume, atualmente em desuso, de ler passagens bíblicas, ao serão, em família, era hábito salutar.
Ofertar aos filhos Bíblia adaptada às crianças é, também, de grande proveito.
Falo da Bíblia, porque é a Palavra de Deus; mas livros devotos ou que apresentam vida de santos, são excelentes para a formação espiritual e moral da mocidade.
Pretende-se que os jovens reconheçam que orar não é repetir orações enfadonhas, como se castigo fosse.
Jacinta, vidente de Fátima, disse que antes das visões, abreviavam a reza do terço, dizendo apenas “Ave-Marias” e “ Pai-Nosso”. Deste jeito o tempo de oração era curtíssimo, e tinham, assim, mais horas de brincadeira.
Para os pastorzinhos, antes de terem contacto com Nossa Senhora, rezar não era diálogo, mas obrigação, que consideravam desnecessária.
Ajudemos os nossos filhos a amadurecerem espiritualmente, lendo as passagens mais interessantes da Bíblia, e entoando, com eles, formosos e edificantes hinos.
Rezar é cantar. Orar pelos doentes, pelos amigos por infelizes e pela paz do mundo e da alma.
Se assim se fizer, por certo, seguirão o caminho certo.
E se “desgarrarem”, afastando-se da Verdade, a culpa não será nossa.

Então resta-nos rezar para que o filho pródigo volte a buscar e reconciliar-se com o Pai.

A INVEJA E A DEMOCRACIA

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Bertrand Russel, in “ A Conquista da Felicidade”, diz que Madame Roland, “ que é apresentada frequentemente como uma nobre mulher inspirada pela devoção ao povo”, tornou-se assim, porque certa vez, ao visitar um castelo aristocrático, fizeram-na entrar pela porta de serviço e não pela principal.
Para Bertrand Russel, Madame Roland, desde então, abraçou a democracia.
Nasceu, portanto, a democracia - segundo o filosofo e alguns psicólogos, - da inveja.
Não se assevera que todo o democrata é invejoso, ainda que se concorde que a raiz provem desse mal.
Estou convencidíssimo que certos republicanos, são-no, apenas porque não nasceram no seio da alta nobreza, nem foram aceites no seu meio.
Recordo, que Camilo, homem do povo, apreciadíssimo no meio literário, ao receber o título de Visconde, mandou imprimir no cartão-de-visita a coroa, seguindo: Visconde Correia Botelho. Vi exemplar, quando era menino e moço, no Museu Abade de Baçal, em Bragança.
E não escasseiam intelectuais e pseudointelectuais, que dobram letras para pensarmos que são de origem fidalga ou estrangeira. É pecado que enferma muita boa gente.
Não se duvida que a democracia é o melhor sistema, ainda que se reconheça que Jean Jaques Rousseau tinha razão, ao afirmar: “ que governo tão perfeito não convêm a homens, mas a deuses.”
Enferma a democracia de inveja, Guy Bedos, gracejando considera-a: Uma espécie de ditadura da maioria.
A política encontra-se eivada de invejosos. As facões são, em regra, constituídas por ambiciosos, muitos sem escrúpulos; por isso costuma-se dizer: Que na política não há amigos.
Mas também não os há noutras atividades.
Voltaire, em carta a Mademoiselle Quinault, lamenta-se: “ Que ganhei eu em vinte anos de trabalho? Nada, a não ser inimigos. Tal é o preço que, quase sempre, deve esperar-se da cultura das letras: muito desprezo, quando não se triunfa; muito ódio, quando se triunfa”.
Na política passa-se precisamente o mesmo, o que não admira, se recordarmos o velho adágio: “ Quem é o teu inimigo? É o oficial do teu oficio”.
Raro é o político, mesmo da mesma ideologia, louvar outro. A ambição leva-os a criticar sempre o que se encontra em lugar que cobiçam, mesmo quando, em consciência, reconhecem que elaboram em erro.
É devido à inveja e à cobiça que a democracia, sendo, a melhor forma de governo, é, muitas vezes, condenada, já que permite: o forte e poderoso dominar o fraco e indefeso; e criminoso rico, sair ileso, e o inocente pobre condenado.

Mas o defeito não se encontra na democracia, mas nos homens.

AS CIGARRAS E AS FORMIGAS

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia , Portugal)

Certa vez escutei, em entrevista a Manuela Ferreira Leite, esta asseverar: “ Qualquer boa dona de casa sabe governar um pais”. A fórmula é simples: Não gastar mais do que se recebe.
A nação não é mais que uma grande família. E, se a dona de casa deve cuidar para que nada falte, governando-se com o orçamento que tem, o mesmo deve fazer o Governo.
Ninguém, que não sabe governar bem sua casa, devia ser político, e muito menos ministro.
O que acontece, em alguns países, mormente no Sul da Europa, não é só devido à crise financeira internacional, mas ao facto de terem gasto o que tinham, com despesas, muitas desnecessárias, e não se precaverem para situações inesperadas.
Muitas famílias encontram-se em péssimas situações, porque quiseram ter tudo: o necessário e o supérfluo, de imediato.
Endividaram-se, recorreram ao crédito, para comprar: casa, carro, eletrodomésticos, roupas e viagens… e não tiveram cuidado de se precaverem para eventualidades.
 Dizem que Calouste Gulbenkian, o multimilionário, após a saída dos empregados, andava à cata de toquinhos de lápis, que estes tinham deitado fora, para reutilizá-los no aproveita lápis.
Contaram-me que no tempo de Salazar, após este ter pago a colossal divida, saiu uma ordem imanada dos CTT, para que os fios que atavam os maços de cartas, fossem reutilizados. Amarrando-os uns aos outros, fazendo novelos.
Parece-me exagero, quase sovinice, mas Salazar, talvez por saber como custa pôr as contas em dia, chegou a esse extremo.
Escritor francês, cujo nome esqueci, conta que havia em certa localidade, castelão rico, apelidado der avarento, porque aproveitava papelinhos e fósforos queimados e outras extravagâncias.
Uma vez houve um grande incêndio na aldeia, que deixou famílias na miséria. Fez-se peditório, e este doou quantia volumosa.
Perante o pasmo de muitos, explicou: “Foram os papelinhos e fósforos queimados e outras ninharias que permitiram, agora, ser tão generoso.
Sem economia, sem poupança, sem limitar gastos, sem investir bem, sem pé-de-meia, como faziam nossas avós, não há país ou família que progrida.
A crise abalou apenas economias deficientes, os que não imitaram o eleito de Deus, José do Egipto, os que não souberam investir corretamente, os que não puseram a render dinheiro e talentos.
Agora quem paga esses erros são as “formiguinhas” que veem os celeiros espoliados pelas cigarras, que passaram o Verão a cantar, não pensando no Inverno que se aproximava.
São as “formiguinhas, que labutaram uma vida para terem velhice tranquila, que pagam os erros das cigarras, que cantaram, dançaram e desbarataram dinheiro a rodos, no tempo das vacas gordas.
É sempre assim: quem poupa, quem amealha, quem trabalha para ter vida melhor, ou é espoliado por financeiros ou Estado.

As cigarrinhas, quando lhes falta alimento, assaltam os celeiros cheios e ainda reclamam e insultam quem, grão a grão, lhes vai enchendo o papo.

O DESEJO DA IMORTALIDADE

Por Humberto Pinho da Silva (Vila Nova de Gaia, Portugal)

Não recordo quem disse, que para o ser humano sentir-se realizado, deve concretizar três desejos: um filho, escrever um livro e plantar uma árvore.
São três modos, a seu alcance, para se perpetuar.
O jeito mais sublime, é sem dúvida, conceber a criança, carne de sua carne, a quem legue, nome e valores que acredita.
Mas nem sempre o filho perpetua a memória do gerador. Há quem despreze os pais, mormente se estes são de origem modesta; e os que aproveitam o casamento para se libertarem de sobrenomes “indesejados “.
O melhor meio de “permanecer”, após a morte física, é, a meu ver, escrever o livro. Nele deixa-se: o pensamento, reflexões e o estilo, que é um pouco da alma.
Infelizmente, o livro também morre. Morre nas estantes das bibliotecas, vítima de enfermidades de papel, ou esquecido como mono, manchado pela humidade, em escuros armazéns de livreiros.
Sei bem que pode haver reedições, mas isso acontece a poucos, aos que ascenderam ao estrelato; a maioria desaparece, comidos pelas traças e bichinhos indesejáveis.
Resta, finalmente, ao infeliz mortal, a árvore, já que esta permanece dezenas e até centenas de anos; e todas as primaveras se touca de graciosas flores e frutos, se for frutífera.
Mas a árvore não é eterna, e raras vezes, quem a observa, se lembra de quem plantou e ajudou-a a crescer.
É humano o desejo de perpetuar-se, mas a melhor forma de o fazer, é a prática do bem, a dedicação, desinteressada, à causa humanitária.
Certo é que, também a prática do bem, a entrega ao próximo, não irá, por certo, perpetuar, o mortal. Decorrido, e não é necessário muitas gerações, não passará de pálida imagem em papel fotográfico, e permanecerá para os descendentes, como antepassado, quase desconhecido, do qual - mesmo para os que usufruam bens por ele deixado, - nem sequer conhecem o nome.

Assim é, porque este não é o nosso mundo. Somos meros peregrinos que caminhamos, diariamente, para a Vida, ainda que alguns pensem o contrário.

EMBLEMÁTICO

Por Pedro Du Bois (Itapema,SC)

Repito o lema em voz alta
reparto o tema em gritos
reconduzo o cego ao lado
na incerteza no caminho:

exijo a reposição da perda
nos desencontros repetidos

em palavras de recolhimento.

PARTIDA

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

O motor ligado
o câmbio
os pés deslizam pedais
                    de ir embora

a imagem retrovista
avisa da tristeza

o limpador do parabrisa

espalha lágrimas pelo caminho.

REQUERER

Por Pedro Du Bois (Itapema, SC)

Requeiro
visto
de saída

em nova vida
me arrependo
na continuação da busca

requeiro visto de entrada
e regresso ao prazer atávico
do seio materno

saio em vida envelhecida
de reconhecimento e prodigalidade.