O NEGRO DOS OLHOS TEUS

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

                                                                                            Para Vanessa Martins DA Maia

Quantos mistérios...
Podem caber no negro...
Dos olhos teu?
O que tu escondes de mim?
No cair da noite eviterna?
Quando todos foram dormir...
O sono eterno!
***
Mas amanheceu
No novo mundo...
Sacrossanta madonna minha!
E passou da hora...
De ganhares as ruas...
Novamente!
Divinal consorte minha,
Passou da hora...
De experimentares o frescor,
Da luz do dia !
***
Mas quantos mistérios...
Ainda podem caber...
No negro dos olhos teu?
Por quantos tortuosos caminhos...
Percorresses...
Minha magnânima musa ideal...
Até chegares aqui?
***
Quantos mistérios podem caber...
No magnifico olhar teu?

COMO ME ILUDI

Por Vivaldo Terres (Itajaí, SC)

Entre outras que conheci...
Tu foste aquela...
Que sempre amei.
Eras para mim,
A fonte de ternura!
E único amor que sempre devotei.
***
Eras para mim a eterna claridade.
Mesmo nos dias nublados...
E noites sem lua!
Eras para mim o sol,
Com o seus raios divinos.
Ao me aquecer...
Após uma noite fria!
***
Hoje apesar dos tempos...
Já passados!
E saber que já...
É uma página virada...
Como me iludi!
Com estes pensamentos...
Como posso te esquecer,
Se tu foste a minha amada?

A MINHA PRIMEIRA ÁRVORE

Por Urda Alice Klueger (Enseada de Brito, SC)       
             
                                    Na primeira casa da minha infância havia, ao lado, um quadrado de grama onde a minha mãe quarava roupa, e, no meio desse quadrado, a primeira árvore importante da minha vida. Era um velho pé de Pflaumen (acho que é assim que se escreve – penso que hoje as Pflaumen estão sendo chamadas de ameixas, aquelas vermelhas, que dão na época de Natal).
                                    Aquele pé de Pflaumen continha um universo inteirinho: na sua velhice, era cheio de nodosidades, ocos e cascas esbranquiçadas meio soltas, e nele eu podia encontrar tudo o que o universo da imaginação continha. Até hoje eu não saberia dizer o tamanho que é o universo da imaginação, mas sei que ele estava todo lá. Aquela velha árvore foi o meu primeiro exercício para um dia vir a ser uma escritora.
                                    No seu tronco, eu encontrava tenebrosas cavernas onde, com certeza, moravam anõezinhos para os quais eu imaginava as mais fantásticas aventuras. Também fadinhas transparentes voavam por ali, eu tinha certeza, e eram de realizar qualquer desejo que uma criança tivesse. Eu via esses anõezinhos e essas fadinhas com a mesma nitidez com que via as borboletas, as bichas-cabeludas e os outros insetos que por ali andavam, e para cada um eu imaginava enredos e aventuras. Tinha um cuidado especial com as bichas-cabeludas, nas quais sabia que não deveria tocar, pois já, um dia, encostara numa delas, e doera terrivelmente a queimadura que seus pelos tinham deixado na minha pele. Mas elas eram lindas! Havia-as vermelhas, alaranjadas, amarelas, verdes – que fantásticas que eram, com suas dezenas de pezinhos e seus pequenos corpos que se movimentavam velozmente pelo tronco daquela árvore encantada!
                                    Por ali, também, estavam as inimigas – é triste constatar que, já lá ao três anos de idade, a gente descobre que sempre há algum tipo de inimigo! As inimigas, no caso, eram as aranhas, que estendiam magníficas teias perfeitamente tecidas aproveitando como apoio as cascas do rugoso pé de Pflaumen, e nas manhãs daquela Primavera onde eu estava descobrindo o mundo, aquelas teias acordavam resplandecentes de orvalho, como verdadeiras jóias tecidas de miríades de diamantes luminosíssimos! A aranha ficava lá, bem no meio daquela luminosidade toda, e eu ficava olhando, torcendo para que ninguém quisesse chegar perto. Não tinha jeito, porém – sempre alguém acabava atraído por toda aquela beleza que resplandecia ao sol, e às vezes eu conseguia salvar o inseto desavisado, puxando-o para fora da enganosa e grudenta teia com um pauzinho. Às vezes, porém, não era possível. Então, horrorizada, eu via a aranha vir andando devagar, com toda a calma, para saborear o seu almoço. E olhem que às vezes era almoço grande, uma bicha-cabeluda inteira para uma pequena aranha – então quando não tinha o que fazer, eu fechava os olhos e corria me esconder para chorar, escondida, pela sorte daquele bichinho que estava sendo devorado.
                                    Alguém há de perguntar: por que é que eu não matava as aranhas? Sei muito bem a resposta: porque não tinha coragem. Elas também eram vida e também faziam parte do mundo mágico e encantado daquela minha primeira árvore. Havia que tentar proteger os outros insetos, mas também havia que respeitar as aranhas e as suas teias luminosas e enganadoras.
                                    Aquela minha primeira árvore muito me ensinou sobre a vida e sobre a imaginação. Mesmo agora, tantas décadas depois, quando as coisas ficam complicadas, às vezes eu penso nela, e desejo ser muito pequena, para voltar a ela e esconder-me numa das suas misteriosas cavernas. Imaginando com força, ainda consigo.


                                               Blumenau,SC, 08 de Setembro de 2002.

PROJETO GEMINI

Por Urda Alice Klueger ( Enseada de Brito, SC)

Sempre digo que me criei numa época maravilhosa, onde aconteceram coisas tão fantásticas como nunca o mundo tinha visto. Essas coisas vão desde os Beatles até o movimento hippie, com sua quebra dos valores estabelecidos, e entre elas, sem dúvida, uma das mais empolgantes foi a corrida espacial.
Eu ainda não sabia ler quando me chegou a primeira informação: o Sputnik, artefato soviético que andou entrando na órbita da terra. O Sputnik chegou até mim através de uma revista infantil chamada “Reizinho” – minha irmã mais velha foi quem leu para mim a história do Reizinho às voltas com um Sputnik que ele não entendia.
Em seguida, houve a história da cachorra Laika, que havia entrado em órbita terrestre. Talvez Laika tivesse viajado no próprio Sputnik, não sei mais – o que sei é que nasceu uma ninhada de cachorrinhos, lá em casa, e a cadelinha mais bonita recebeu o nome de Laika. Bem empolgantes foram os meus primeiros contatos com a corrida espacial! Só tinha que me envolver com ela!
Em 1961, quando estava no segundo ano de escola, minha professora, a Irmã Rosária, contou-nos que um ser humano, dentro de uma nave espacial, andara na órbita da Terra. Não sei o que as outras crianças acharam, mas para mim foi o máximo: para uma criança que tinha uma cachorra chamada Laika e que já prestara atenção no Sputnik, aquilo era uma baita novidade. Se a memória não me falha, o ser humano em questão chamava-se Iuri Gagarin.
Daí para a paixão total pelo assunto foi um pulo, principalmente quando os Estados Unidos entraram na corrida espacial e começou o projeto Gemini.
Quantas Geminis foram para o espaço? Já não sei mais, mas foram muitas. Sei é que não perdia mais um noticiário, no rádio, de meio-dia e de noite, para ver se havia alguma notícia nova sobre o projeto Gemini.
As naves espaciais Gemini sempre levavam dois ou três astronautas, e é claro que eu também iria ser astronauta quando crescesse. A cada nave que ia para o espaço, eu passava dias e dias o mais que podia junto ao rádio, acompanhando todas as possíveis notícias sobre cada astronauta, vivendo a vida deles, querendo respirar por eles.
Houve uma viagem de uma Gemini que não deu muito certo: na hora de reentrar na atmosfera da Terra, alguma coisa saiu errada, e a nave não podia mais voltar. Meu Deus, o que seria dos meus maravilhosos astronautas que eram como pessoas da minha família? Eles iriam morrer lá em cima, quando acabasse o oxigênio – um astronauta era alguém sagrado, não podia morrer! Ah! Como eu rezei naqueles dias, o quanto pedia a Deus e ao meu anjo-da-guarda que ajudasse os estadunidenses para que eles achassem uma solução, para que salvassem os astronautas! Era indizível a minha angústia, impossível sossegar ou dormir quando sabia que, lá no céu, em algum lugar, alguns astronautas poderiam, dali a algumas horas, ficar sem oxigênio e morrer!
Os estadunidenses acabaram achando o ângulo certo para a nave reentrar na atmosfera, e os astronautas por quem eu tanto rezara acabaram caindo no Oceano Pacífico, e saíram da sua Gemini sorrindo para todo o mundo. Essas imagens a gente via nas revistas, na semana seguinte, e elas aqueciam o coração, como aqueciam!
Daí, já perto de 1970, quando eu já era uma adolescente, mas não tinha perdido nem um pouquinho do meu entusiasmo pela corrida espacial, uma Gemini chegou à lua! Só fui ver as imagens televisadas anos depois – ainda não tínhamos televisão, continuávamos com as fotos das revistas, mas aquilo foi uma das coisas mais fantásticas que poderia ter acontecido! É claro que depois da lua iríamos a Marte, e a outros, outros e outros planetas. Eu me aplicava na escola para estar bem preparada na hora de ser astronauta, mas a coisa mixou. Depois da lua, o Projeto Gemini foi parando... parando... até que parou de vez. Vieram outras coisas, depois, ônibus espaciais, coisas assim, mas a magia do projeto Gemini nunca mais voltou.  Acabei sendo escritora, sem a menor chance de algum dia chegar à astronauta. Foi uma pena! Teria sido muito mais divertido se o antigo sonho tivesse dado certo!


Blumenau, SC, 28 de junho de 1997.

CARTA DE AMOR

 Por Clarisse da Costa  (Biguaçu, SC)

Eu não tenho como
Tirar a sua dor
Meu amor,
Faz parte da vida;
Dizem que com ela
Vem o nosso crescimento;
Não sei onde nos leva,
Mas vi algumas dores
Unirem pessoas
E abraços formarem laços.
Não sei se você
Percebeu
Eu lhe prendi a mim
Como passarinho na gaiola;
Só que a minha gaiola
Sempre estará aberta
Pra quando você quiser partir.
Dentro de mim
Mora o amor;
Aliás, sempre morou;
Hoje nutri sentimentos por você.
Não foi por querer;
Talvez sendo;
Foge de mim;
São inesperados
Esses meus sentimentos;
Latentes
E profundos n’alma;
Ela que nunca sabe me dizer
A direção.
Não são teus
Os meus sonhos;
Nem os teus
Os meus;
Às vezes
Nem dona de mim
Eu sou.
Caio fundo
No ignoto espaço
Onde sobram pensamentos;
Palavras caiem na roda;
Ficam na ciranda;
A roda gira e gira,
E sempre para no mesmo ponto,
Você comigo!
Então tento me perder
Nos seus braços,
Na tentativa de ser;
Talvez um suspiro de amor.
Por alguns instantes
Sou tua
De sutiã vermelho
A sua espera;
O sorriso no canto
E o olhar lhe chamando.
Meu amor...
Assim posso chamar-te;
Cada linha que escrevo
Digo o quanto
Eu te amo.
Loucura?
Talvez.
O mais provável
É uma fuga de mim,
Do cotidiano
E o desejo de ter

O que eu não tive.
Você é a minha esperança
Que tudo é possível.
Vi nos seus olhos
O que há em mim,
Uma vontade de vencer;
Um brilho que
Toma conta de todo o meu corpo
E me faz esquecer
Do tempo,
Das horas marcadas
Do cotidiano,
Da loucura insana
Do meu ser.
Meu amor,
Não sei
O que sou para você;
Mas essas alturas
Nada importa;
Somente saber que é
Possível amar
Sem sofrer!


O MURO DE BERLIM

Por Urda Alice Klueger (Enseada de Brito, SC)

Em 1961, quando construíram o Muro de Berlim, eu tinha nove anos, e mal-e-mal sabia que Berlim ficava na Alemanha. Essas coisas de Alemanha dividida, de pós-guerra, de bloco capitalista e socialista, eram todas coisas das quais eu ainda não tinha consciência. Sabia, porém, como não podia deixar de ser, que a Alemanha havia sofrido muito durante a guerra, pois ouvia as inúmeras histórias das pessoas de Blumenau, que mandavam pacotes com comida e roupa para seus parentes do castigado país, e espantava-me ao saber que as roupas enviadas tinham que ser lavadas uma vez, para não parecerem novas, e outros detalhes assim, coisas que uma criança do pós-guerra, em Blumenau, sempre acabava ouvindo.
Havia, até, uma piada que eu achava engraçada e tétrica, que circulava nessa época, sobre a história de se mandar pacotes com comida para a Alemanha. Uma família escreveu para seus parentes de lá informando que seguia pelo correio (via navio) uma caixa com pó para pudim. Acontece que a avó da família, que vivia aqui em Blumenau, morreu. Ela sempre tinha pedido que, quando morresse, fosse cremada, e suas cinzas enviadas à Alemanha. A família cumpriu seu desejo: cremou a avó, colocou suas cinzas numa caixa, e enviou a mesma, via aérea, para a Alemanha.  Seguiu uma carta, também, explicando que estariam chegando as cinzas da avó, só que tal carta se atrasou. Quando chegou a caixa com as cinzas, os parentes de lá acharam que era a caixa com o pó para pudim, e não deu outra: fizeram pudim com as cinzas da avó, comeram a avó. Piada sem graça que circulava em Blumenau na década de sessenta.
Pois bem, a Alemanha, para mim, ainda era aquela do pessoal que fez pudim com a  avó, quando, um dia, na igreja, o padre falou sobre uma coisa estarrecedora: uma cidade fora brutalmente dividida por um muro que separara pais de filhos, irmãos de irmãos, amigos de amigos. Pintou as coisas com as piores cores (e as cores eram feias mesmo), e convidou o pessoal da missa para ir ver uma exposição fotográfica sobre o assunto, que passava pela cidade, e que estava exposta no nosso Teatro Carlos Gomes.
Um dia ou dois depois, aquilo ainda estava na minha cabeça, e avisei minha mãe que ia ver a exposição. Creio, hoje, que aquela foi a primeira vez que entrei  no nosso imponente Teatro Carlos Gomes, que parecia muito mais imponente ainda por eu só  ter nove anos.
Gente, eu não esqueci daquilo até hoje! Sem quem me orientasse na exposição (fora sozinha), devo ter passado horas e horas olhando aquelas fotos e lendo as legendas. Aquilo era muito mais chocante do que o padre falara: as imagens tinham uma força como eu não sabia, uma força que as décadas seguintes aproveitariam com força nos meios de comunicação, mas que, naqueles tempos de rádio, a gente ainda não conhecia.
Cruamente cruel, lá estava o muro tapando as janelas dos prédios, deixando os moradores sem luz. Sem disfarces, lá estavam as guaritas com os soldados armados, que vigiavam a faixa de cem metros, cheia de obstáculos, onde não se podia passar. Lá estavam os rolos de arame farpado, as armadilhas, o terreno minado. E, o que era pior para mim, lá estava o muro interrompendo as ruas – e se interrompessem a minha rua, e eu não pudesse mais ir para a escola, ou na casa da tia Fanny? A agressão daquelas fotos entrou na minha pequena alma de nove anos com toda a força: acho que foi a primeira vez que dei de cara, mesmo, com a crueldade. O padre já tinha falado que muitas pessoas estavam morrendo metralhadas, por lá, na tentativa de fugir para Berlim Ocidental, e minha imaginação fértil via as pessoas correndo sob o foco dos holofotes e sendo ceifadas por armas poderosas. O horror daquilo ficou indelevelmente marcado na minha vida. Creio que, quando saí de lá, senti alívio: Berlim era muito longe, numa remota Alemanha, país onde se comiam avós pensando-se que eram pudins – aquilo nunca aconteceria na minha pequena realidade de Blumenau.
Quase trinta anos depois, em 1989, quando o muro caiu, eu senti um alívio imenso. A minha angústia de 1961 vivera comigo todos aqueles anos. E eu exultei como os jovens alemães de 1989 exultaram, e, meses depois, vi um pedacinho de muro que um rapaz de Blumenau havia recebido como souvenir: ingênuo e inofensivo, o pedacinho de muro estava numa caixinha de jóias, apoiado sobre algodão. Não parecia ter aquele horror de 1961, mas eu sabia que tinha.


Blumenau, SC, 28 de junho de 1997.