CONHECIDOS

Por Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)


Conversamos longas horas

fôssemos amigos de sempre

e nossas infâncias

precisassem ser revistas

nos sonhos alcançados

pelas frustrações dos caminhos

raiva e ódio do que deu errado

rimos velhas piadas repetidas

e a bebida nos subiu a cabeça

embriagados entre tempos



as restantes horas foram de silêncios

olhares dispersos nos móveis da sala

o constrangimento na falta de assunto

nossas conversas passadas no início

desencontros impostos pela vida

no vício do trabalho e famílias



fomos conhecidos outrora

colegas nos bancos escolares

que se reencontram por acaso

esquecidos das lembranças


logo voltem aos seus mundos.

ACQUAINTED

By Pedro Du Bois (Balneário Camboriú, SC)

(Marina Du Bois, English version)



We talked for long hours

as if we were old friends

and our childhoods

needed to be revised

in dreams reached

by the frustrations of the paths

hate and anger at what went wrong

we laughed at old and repeated jokes

and the drink came to our heads

drunk between times



the remaining hours where of silences

scattered looks on the living room      furniture

the constraint in the lack of subject

our pas conversations at the beginning

mismatches imposed by life

in work addiction and families



we were acquainted once

classmates

who meet again by chance

with forgotten memories


soon return to their worlds.

MAR EM FÚRIA

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

                                                                     Para José Luiz P. Grando e Roberto Lamim

Acreditar em quem?
Nestes dias confusos...
De extrema dor,
De profunda solidão!
E puro desespero.
***
Ando pela orla da praia!
Com meus fraternais amigos!
De luta e da negra dor...
Saudamos o mar em fúria,
E as milenares rochas.
Avisam-me...
Que não somos coisa alguma.
Que não devemos...
Querer ser nada...
Que não seremos nada.
Não poderemos ser nada!
***
Ando pela orla da praia!
E mais que de repente,
Uma onda...
Que me pega desavisado
Lembra-me!
Que na sou nada...
***
A água fria e salgada,
Queima as novas tecnologias!
Avisando que não somos nada...
Que não devo querer ser nada!

ADEUS GESTALT

Por Samuel da Costa (Itajaí,SC)

Hoje não
Eu não ficarei a tua
Milenar espera
Não perderei meu sacrossanto sono
Por ti
Meus devaneios idílicos
Vão para bem longe
Da tua trágica presença
Na minha vida
***
Hoje não
Não te renderei
Quiméricos tributos
Ficarei sozinho comigo mesmo
E mais ninguém
***
Pois hoje
Não tenho nada para te dizer
Ignota musa intocada
Enclausurada eviterna
Na Turris Eburnea
***
Hoje
E então somente hoje
Estou perdido
Vagando
No deserto árido pós-modernista
Dentro de mim
***
Hoje prefiro o silêncio sepulcral
Ficar no silêncio secular
Dos intervalos infinitos
Dentro de mim
Hoje fico sozinho
Em paz comigo mesmo

O NEGRO DOS OLHOS TEUS

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

                                                                                            Para Vanessa Martins DA Maia

Quantos mistérios...
Podem caber no negro...
Dos olhos teu?
O que tu escondes de mim?
No cair da noite eviterna?
Quando todos foram dormir...
O sono eterno!
***
Mas amanheceu
No novo mundo...
Sacrossanta madonna minha!
E passou da hora...
De ganhares as ruas...
Novamente!
Divinal consorte minha,
Passou da hora...
De experimentares o frescor,
Da luz do dia !
***
Mas quantos mistérios...
Ainda podem caber...
No negro dos olhos teu?
Por quantos tortuosos caminhos...
Percorresses...
Minha magnânima musa ideal...
Até chegares aqui?
***
Quantos mistérios podem caber...
No magnifico olhar teu?

COMO ME ILUDI

Por Vivaldo Terres (Itajaí, SC)

Entre outras que conheci...
Tu foste aquela...
Que sempre amei.
Eras para mim,
A fonte de ternura!
E único amor que sempre devotei.
***
Eras para mim a eterna claridade.
Mesmo nos dias nublados...
E noites sem lua!
Eras para mim o sol,
Com o seus raios divinos.
Ao me aquecer...
Após uma noite fria!
***
Hoje apesar dos tempos...
Já passados!
E saber que já...
É uma página virada...
Como me iludi!
Com estes pensamentos...
Como posso te esquecer,
Se tu foste a minha amada?

A MINHA PRIMEIRA ÁRVORE

Por Urda Alice Klueger (Enseada de Brito, SC)       
             
                                    Na primeira casa da minha infância havia, ao lado, um quadrado de grama onde a minha mãe quarava roupa, e, no meio desse quadrado, a primeira árvore importante da minha vida. Era um velho pé de Pflaumen (acho que é assim que se escreve – penso que hoje as Pflaumen estão sendo chamadas de ameixas, aquelas vermelhas, que dão na época de Natal).
                                    Aquele pé de Pflaumen continha um universo inteirinho: na sua velhice, era cheio de nodosidades, ocos e cascas esbranquiçadas meio soltas, e nele eu podia encontrar tudo o que o universo da imaginação continha. Até hoje eu não saberia dizer o tamanho que é o universo da imaginação, mas sei que ele estava todo lá. Aquela velha árvore foi o meu primeiro exercício para um dia vir a ser uma escritora.
                                    No seu tronco, eu encontrava tenebrosas cavernas onde, com certeza, moravam anõezinhos para os quais eu imaginava as mais fantásticas aventuras. Também fadinhas transparentes voavam por ali, eu tinha certeza, e eram de realizar qualquer desejo que uma criança tivesse. Eu via esses anõezinhos e essas fadinhas com a mesma nitidez com que via as borboletas, as bichas-cabeludas e os outros insetos que por ali andavam, e para cada um eu imaginava enredos e aventuras. Tinha um cuidado especial com as bichas-cabeludas, nas quais sabia que não deveria tocar, pois já, um dia, encostara numa delas, e doera terrivelmente a queimadura que seus pelos tinham deixado na minha pele. Mas elas eram lindas! Havia-as vermelhas, alaranjadas, amarelas, verdes – que fantásticas que eram, com suas dezenas de pezinhos e seus pequenos corpos que se movimentavam velozmente pelo tronco daquela árvore encantada!
                                    Por ali, também, estavam as inimigas – é triste constatar que, já lá ao três anos de idade, a gente descobre que sempre há algum tipo de inimigo! As inimigas, no caso, eram as aranhas, que estendiam magníficas teias perfeitamente tecidas aproveitando como apoio as cascas do rugoso pé de Pflaumen, e nas manhãs daquela Primavera onde eu estava descobrindo o mundo, aquelas teias acordavam resplandecentes de orvalho, como verdadeiras jóias tecidas de miríades de diamantes luminosíssimos! A aranha ficava lá, bem no meio daquela luminosidade toda, e eu ficava olhando, torcendo para que ninguém quisesse chegar perto. Não tinha jeito, porém – sempre alguém acabava atraído por toda aquela beleza que resplandecia ao sol, e às vezes eu conseguia salvar o inseto desavisado, puxando-o para fora da enganosa e grudenta teia com um pauzinho. Às vezes, porém, não era possível. Então, horrorizada, eu via a aranha vir andando devagar, com toda a calma, para saborear o seu almoço. E olhem que às vezes era almoço grande, uma bicha-cabeluda inteira para uma pequena aranha – então quando não tinha o que fazer, eu fechava os olhos e corria me esconder para chorar, escondida, pela sorte daquele bichinho que estava sendo devorado.
                                    Alguém há de perguntar: por que é que eu não matava as aranhas? Sei muito bem a resposta: porque não tinha coragem. Elas também eram vida e também faziam parte do mundo mágico e encantado daquela minha primeira árvore. Havia que tentar proteger os outros insetos, mas também havia que respeitar as aranhas e as suas teias luminosas e enganadoras.
                                    Aquela minha primeira árvore muito me ensinou sobre a vida e sobre a imaginação. Mesmo agora, tantas décadas depois, quando as coisas ficam complicadas, às vezes eu penso nela, e desejo ser muito pequena, para voltar a ela e esconder-me numa das suas misteriosas cavernas. Imaginando com força, ainda consigo.


                                               Blumenau,SC, 08 de Setembro de 2002.