CONTINENTE AO LONGE

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Para Maggie Marisol Núñez e Laura Vogler

Ao longe de tudo
E de todos
Da terra em transe
Eu vejo tudo
***
Sou eu em total êxtase
Bestificado… vitimizado
Decaído
***
Ao longe escuto as sirenes
Os apitos
Os gritos de dor
Os tamborilarem
Dos infernais tambores
***
Soou os gritos de guerra
De um combate que nunca ocorrerá
***
Sou eu caudilho
Sou eu autocrata
Sou eu coronel
Sou eu sul-americano
Sou eu brasileiro/uruguaio
Sou eu brasileiro/paraguaio
Sou eu brasileiro/argentino
Sou eu um continente inteiro
Sub-julgado



FABRIZZIA BORSARY


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

O que vai dentro
Dos seres alheios a nós mesmos
É quase sempre minha querida
Um túrbido oceano
De infindos e abissais mistérios
***
É o amor consorte minha
O divinal amor puro
E verdadeiro
Que nasceu excelso
Pelo encantamento
Dos místicos e hialinos
Olhos verdes teu
***
Dar-te-ei um ignoto buquê
De celestiais flores alvas
De luxuriantes rosas àlgidas
Colhidas no arrebol
No meu vergel em chamas


A DOUTRINA MONROE


Por Urda Alice Klueger (Enseada de Brito, SC)


Por volta de 1820 (200 anos atrás) era presidente dos Estados Unidos um homem chamado Monroe. Nessa altura, estava-se a fazer-se as diversas independências da América, a maioria das quais tinha sido feita através de sangrentas guerras (a primeira foi a do próprio Estados Unidos, em 1783, que teve que fazer guerra com a Inglaterra; a segunda foi a do Haiti, em 1804, que teve que fazer guerra com a França). Nós, brasileiros, fizemos a nossa independência em 1822 (lembram do 7 de setembro, feriado até hoje?) e não houve guerra, mas tivemos que pagar uma altíssima indenização para Portugal – pagamos durante 150 anos, até o ano de 1972.
                                   Assim, quando esse Monroe disse que a América era para os americanos, foi um aplauso só! O que primeiro se entendeu é que a América era para nós, americanos, sem mais prestar contas aos colonizadores europeus, que eram os que mandavam aqui até então.
                                   É isto que quer dizer a Doutrina Monroe: “A América para os americanos”.
                                   (Nunca devemos esquecer que a América é muito grande, e que inclusive nós, no Brasil, somos americanos. Assim como todo o resto do continente, como Argentina, Peru, Honduras, México, etc. Aqueles que se auto intitulam americanos, na verdade, são os estadunidenses. Não é certo chama-los nem de americanos nem de norte-americanos – na América do Norte há 3 países: o Canadá, os Estados Unidos e o México). 
                                   Então o Monroe disse isso e ficaram todos felizes, até começarem a entender que não era bem assim. O que ele quisera dizer é que os Estados Unidos era a sala de visitas da América, e os demais países eram seu quintal, o lugar onde eles poderiam obter cada vez mais lucros.
                                   Até hoje a Doutrina Monroe está valendo. A cada vez que o Brasil cresce um pouquinho, que a sua população deixa de ser tão pobre, os Estados Unidos organizam um golpe de estado e nos roubam os nossos direitos e a nossa economia, para que ELES fiquem cada vez mais ricos. É o que está acontecendo neste momento, e funciona porque os ricos do nosso país não querem perder suas regalias e apoiam os golpes, mas já aconteceu outras vezes, como no governo de Getúlio Vargas e João Goulart. Os governos Lula e Dilma foram governos chamados progressistas (não confundir com comunistas ou socialistas) e porque o povo passou a viver um pouco melhor (bolsa família, créditos, minha casa minha vida, universidades em abundância, salário mínimo de cerca de 350 dólares – vale lembrar que em 1988 o nosso salário mínimo valia cerca de 20 dólares, o que daria agora mais ou menos 60 reais por mês), esse pouquinho a mais que o povo passou a ter já ouriçou de novo a Doutrina Monroe, que queria aquele pouquinho de cada um para os Estados  Unidos ficarem cada vez mais ricos. Daí o golpe que vivemos.

                                   Sertão da Enseada de Brito, 05 de maio de 2018.

                                   Urda Alice Klueger
                                   Escritora, historiadora e doutora em Geografia.


ABRIGADO NO SILÊNCIO EVITERNO

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

(Para Fáh Butler Rodríguez)
  
Em sonho!

O sidéreo poeta em dor...

Abrigou-se no silêncio eviterno!

Dispersou-se...

Na excelsa noite outonal!

Ao som ignoto...

De todas as sinfonias noturnas!

Em total êxtase...

Embriagado...

Pelo eflúvio da dama da noite!

***

O aedo imortal criou sintéticas asas!

E de mãos dadas...

Com a sacrossanta musa

Alçaram um ignoto voo!

***

Vem consorte meu...

Juntos alcançaremos os astros...

Trespassam...

Para além do cosmo infindo.

Perpetuamos...

O nosso sideral amor...

Para todo o sempre...

***

O sibilino poeta em dor!

Abrigou-se no silêncio eviterno!

Dos seus profanos versos!

***

Nessa hora ancestral…

O enamorado poeta em dor

Perdeu-se por completo!

E em sonho reencontrou-se...

Nos sibilinos braços.

Da sacrossanta musa imortal!

***

Abrigo-me

No silêncio eviterno teu!

Meu abstrato aedo

Em vão espero-te!

Pelo que não vem...

E que nunca virá

***

Em sonho!

Conclama o nome teu

Abrigo-me no silêncio eviterno

Durma para nunca mais acordar

Por fim


FAZ UM PACTO COMIGO

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

(Para negra Valquíria)

Ficamos nós dois mudos!

Calados!

Inertes!

Absortos!

Depois da hora derradeira.

Bem depois do amor...

Quando as primeiras impressões,

Dissiparem-se por completo.

E não sobrar mais nada...

De nós dois!

E tu ter me esquecido,

Completamente!

***

Hei! Não chore assim!

Faz um pacto de sangue comigo.

De não nos amarmos mais!

Quando o carrasco vier nos buscar.

Quando o destino nos afastar.

Para todo o sempre!

***

Faz um pacto de silêncio comigo!

Silenciamos!

O nosso amor clandestino.

Para que os deuses.

Tenham piedade de nós.

***

Hei! Luz da minha vida...

Não sonhe mais comigo.

Em horas impróprias...

Não digas furtivamente!

Para mais ninguém...

Que ainda me amas.

Não digas para os outros...

Que ainda sonhas comigo!

Em horas extremas.

***

Fui eu que deixei...

As cinzas das horas...

Levar o meu platônico amor!

Por ti.

Minha divina Luna!

E o olhar da Medusa...

Sepultou o meu profano amor

Por ti…

Para todo o sempre.

Minha Beltia imortal...


OUÇO ISSO COM TRISTEZA

Por Vivaldo Terres (Itajaí, SC)

Porque ainda temas em dizer me, que me amas,
E que o teu amor é o mais puro do mundo!
E que a minha fisionomia está sempre diante de ti,
E por isso não podes esquecer-me nem por um segundo.

***

Ouço isso com tristeza prima da hipocrisia,
Pois quando estávamos juntos, fingias amar-me!
Usando uma formula que na verdade!
Eu já conhecia.

***

Acredito teres algum curso de teatro!
Ou quem sabe vês muita novela...
No momento vejo-te como uma atriz,
Representando o papel duma delas.



FERRO DE BRASA


Por Vivaldo Terres (Itajaí, SC)

A vovó era simpática,
Morava aqui na Comasa.
E passava toda a roupa,
Com o seu ferro de brasa.
***
Quando chegou o ferro elétrico,
Começou a reclamar
Dizendo este ferro não esquenta
Como é que vou passar?
***
Como é que irei passar...
O terno do João?
E o vestido da Geralda?
Este ferro não esquenta
As roupas ficam amassadas.
***
E era assim todas às vezes
Que a vovó ia passar
As roupas que precisava
Sempre a questionar.
***
Foi então que mamãe disse
Já de tanto intrigada,
Este ferro esquenta sim
A senhora é que não está acostumada.
***
Mas resolveu em segundos
Problema de quase um mês,
Depressa foi na dispensa,
Trouxe o de brasa outra vez."