BONECA DE PANO

 Por Carla de C. Muniz (Rio de Janeiro, RJ)

Assim começa a história de uma linda boneca de pano. No início era tão linda com seus olhos em botões castanhos. Era amada por todos na família. Mas como tudo tem seu tempo. O dela também chegou.

Sozinha jogada em um canto pelo quarto já não via a luz do sol e não era mais querida. Apenas recordações, vivia a boneca de pano. Esquecida até por aqueles que diziam que a amavam.

O tempo passou seu vestido rasgado e a falta de um dos olhos foi o motivo para ser descartada. Mesmo no lixo ainda amava as pessoas que a deixaram. E antes de ser levada pelo caminhão de lixo, apareceu uma menina que a resgatou.

Costurou seus olhos e fez um lindo vestido. Recebeu outro nome e foi acalentada. E o mais importante é que ela voltou a ser amada...


 

MUNDO PARTICULAR

 Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

 

Cada detalhe daquele homem

Me fascina intensamente,

Ele tem um jeito selvagem

E doce ao mesmo tempo.

Eu me perco às vezes nos seus olhos.

Cada palavra dita

São como toques fortes

Deslizando no meu corpo.

Eu nem percebo as horas passarem.

O tempo não existe para nós.

A vida ousa nos desafiar.

Parece que criamos um novo mundo

Interessante nosso,

Sem medo de errar.

Sem culpa.

Pele a pele, como deve ser.

As estações mudam e nós

Continuamos nesse mundo particular.


Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, SC.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

 

 

EM PERPÉTUOS CICLOS

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)


Em memória de João Carlos Pereira

 

‘’Eu prefiro as certezas do sim!

 Do que a incertezas do talvez.’’

Clarisse da Costa

 

            Uma vaga leve fragrância de flor de laranja alternado por um forte olor almiscarado estava suspenso no ar. Uma explosão de fortes e vívidas cores irritou muito o agente de segurança que vagava pelo salão. O vai e vem de gente negra, de vários tons de pele escura, pulseiras reluzentes, enormes brincos, lenços na cabeça, turbantes variados e as roupas berrantes e chamativas.

E o som baixo e discreto de eufônicas de variadas línguas estrangeiras que se lançavam no ar e intercambiavam entre as pessoas que ocupavam os espaços como se fosse uma perfeita sinfonia. O agente de segurança de idade avançada sentiu um frio na espinha como nunca tinha sentido antes.

***

            — Aquieto-me para recomeçar um novo ciclo professor Muteia. O texto quase parece com o de uma falecida autora. Mas a obra é minha com toda a certeza! — O rascunho estava na mesa, Adérito Muteia relutava em pegar o manuscrito para ler. O literato africano já tinha recebido uma cópia em mídia digital. Mas algo gritava dentro dele e de forma desesperada.

            — Minha querida Fabiana de Lima, não creio que posso satisfazer os anseios de vossa senhoria no momento.

            O palavrório afetado, com leve sotaque luso, irritou a jovial loura, vestida sobriamente como uma aluna de pós-graduação a apresentar uma tese, com seu tailleur Chanel azul limão. Os olhos castanhos em chamas dela cravaram profundamente em Muteia, o africano devolveu semicerrando os olhos negros profundos. Seria uma reunião e tanto pensou Muteia àquela hora.

            O agente de segurança passou ao lado de onde Fabiana e Muteia foram se alojar. O homem da lei, muito idoso para um agente de campo, parou e se voltou de forma abrupta para o casal.  Mil vozes mínimas em desesperos urraram dentre dele, o casal impassível sequer deu pela existência do homem idoso impecavelmente vestido que andava com a ajuda de uma bengala e de óculos escuros. Cansado o homem sai da sala onde estava, saí como quem foge para salvar a vida cambaleando e lânguido. 

            — Então irá fazer mudanças no texto? Olha o miúda, eu não tenho muito tempo para aspirantes a escritores, és ambiciosa demais e não creio que...

            — Balela professor Muteia! — Falou em tom de desafio — Não vim de tão longe para ter a sua aprovação pessoal!

            — Não me interrompa de novo miúda! Não vou e não quero te dar aprovação alguma, não é este o meu papel!

Muteia estava falando com a jovem adulta na frente dele como se estivesse de novo em campo de batalha. O adido militar já tinha visto isto antes, bem falantes e corajosos jovens combatentes recém saídos de treinamento apressados, em desespero eles choraram e se esconderam quando os combates começavam de fato. 

             — Não quero ser grosseira professor, me desculpe, eu só vim de muito longe e quero ser publicada, eu quero ser mais útil!

            Muteia sentiu um zumbido que crescia e crescia, um drone pensou, dois drones na verdade calculou o professor africano. E o literato ficou mais relaxado e pensou em um charuto, sentia a necessidade de um charuto a bem da verdade.       

          E não demorou muito um jovem secretário indiano bem alinhado veio com uma bandeja de madeira com as bordas artesanalmente decoradas. Nela uma caixa de charutos pintada a mão e de copo de cristal decorado, nela havia chá de lima-da-pérsia gelado. O jovem de cabelos negros e olhos negros vivazes serviu o casal e desapareceu tão rápido quanto chegou. 

            — Miúda não somente querer, pensar ou mesmo desejar! Na verdade, é tudo isto junto temperado com as a casualidades que a vida nos impõe! E temos que viver e conviver não somente com as nossas escolhas, mas também com as escolhas alheias.

            O zumbido ficou mais alto, e o literato esperou e esperou enquanto pegou o cortador de charutos Don Emmanuel e o isqueiro à querosene com tanque de óleo transparente. O professor, literato e adido militar preparou e acendeu o charuto cubano que tinha levado à boca e deu uma demorada baforada.

            A jovem escritora levantou a mão fechada em punho na frente do Muteia, abriu e fechou! O drone parado a poucos metros dos dois se esmigalhou e caiu no meio da rua, caiu na calçada e não atingiu ninguém. Muteia dá uma segunda baforada seguida de um discreto sorriso de marfim e bate palmas.

            — Jovem e impulsiva! E nada discreta pelo que vejo!

            O segundo drone parado a quilômetros de distância caiu lentamente, foi para em uma mata fechada do que seria um jardim de uma luxuosa casa abandonada. Muteia, muito cansara em dar aulas para estes jovens impulsivos. 

            — Vamos ver com mais cuidado o que temos aqui. — Muteia pegou o manuscrito em cima da mesa e leu: Eu falo entre estátuas!


Samuel da Costa é contista, cronista e funcionário público em Itajaí, SC.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

ALÉM DE MIM

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)


Já me desmontei

Em tantos sorrisos,

Nos brilhos dos olhos

Que pareciam dizer algo…

Já fui além de mim

E atravessei o muro do medo,

Me arrisquei, amei, me doei.

Eu tinha um novo mundo

Diante do meu ser

Tão sem expectativa,

Hospedeiro da realidade.

É incrível como as coisas acontecem!

A gente toma decisões

E algumas coisas no meio do caminho

Mudam.

São como flores, novas cores,

Um novo florescer…

E a vida… essa trata de seguir o seu caminho.


Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, SC.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com


EM NEGRAS PALAVRAS

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

Para Miguel Maria da Costa e Aristide Souza Maia

 

Em New Orleans, os sacos de algodão estão cheios, pois já passa das onze horas da manhã. O sol a pino não intimida aquele exército de corpos reluzentes. São Deuses de Ébano a cantar uma doce canção. Que para o povo que está na outra margem do oceano de desigualdade ainda não aprendeu a entoar.

Indo mais ao sul, no Rio de Janeiro, bem próximo à praia, um bater de palma encanta quem passa por perto, corpos elásticos voam ao som de um instrumento musical rústico.

Em África em um país, cuja língua oficial veio a muito da Europa, imposta pelos colonizadores. Um jovem fortemente armado e uniformizado na selva sonha com um futuro melhor, e vê seu país livre do domínio do colonizador. Diante de um regimento estava impaciente tentando articular as palavras em um discurso trêmulo.

No sul do Brasil um jovem artista negro troca o dia pela noite ao cumprimentar os presentes. Está lançando seu primeiro livro de poemas, ninguém parece notar o fato, pois estão todos chocados com a dureza das palavras proferidas.

Um tripulante negro de um navio mercante, que cruza os oceanos para e recorda da infância e juventude em uma ilha perdida nas Antilhas. E no em quem ele teve que deixar para trás, para cruzar a imensidão do mar. Conhecer o mundo era um dos seus sonhos, ainda jovem sonhava em rodar o mundo e conhecer pessoas. Negro como a noite e de origem humilde sabe que jamais comandaria o navio em que trabalha.

Um jovem negro de um país desértico que queira ver a neve pela primeira vez. Agora sentado à mesa de um café, ao norte no velho mundo no leste europeu, se espanta com a forma rude como é tratado a fazer seu pedido.


Samuel da Costa é cronista e funcionário público em Itajaí, SC.

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br


SANTA CATARINA OPRESSORA

 Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

 

Muito do que foi visto em Santa Catarina nos seus registros históricos e desconhecido por muitos é resquício de uma segregação racial, um tanto parecida com que aconteceu por anos na África do Sul. 

A madame entrava no clube enquanto isso a mucama ficava a sua espera do lado de fora. Muitos clubes tradições da elite branca de Santa Catarina, não permitiam a entrada de negros, os poucos que permitiam colocavam uma corda para separar os negros dos brancos e essa cultura da não presença de negros em espaço de brancos permaneceu até o pós-escravidão. Nada de igualdade, nada de democracia. Aliás, onde o racismo é forte não existe democracia.

Mas esse cenário de segregação racial sofreu mudanças quando 1900 surgiram espaços onde a população de origem africana tivesse a liberdade de experimentar culturas e relações de coletividade.

Na grande Florianópolis temos o clube Novo Horizonte, esse nome tem como significado "novos tempos aos negros". O clube surgiu com a chegada de uma família que se mudou para Florianópolis em busca de uma nova vida longe do separatismo e todo preconceito sofrido. Descendentes de escravos, a família tratou de mudar o cenário de preconceito existente na época. Nada fácil ter que lidar com a descriminação, criar um espaço onde as famílias podiam estar ali juntas, se sentindo acolhidas!

Uma sociedade sem o intuito financeiro. Primeiro foi a difícil luta em conseguir o terreno para a construção do clube, segundo o fator cor da pele.

A ajuda veio de onde menos se esperava, em 1988, um alemão casado com uma mulher negra, cansado de ver sua esposa discriminada ajudou a família.

 

Clarisse da Costa é cronista e poetisa em Biguaçu, SC.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

ABRACE A VIDA...

 Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

            O silêncio muitas vezes é assustador, mas também é instigante, pois nos evolui, conecta-se com a alma. Certos barulhos torturam-nos, e são extremamente invasivos.  

De repente, somos nós, reféns de uma alma vazia, sem amor próprio. Toda mulher deve se respeitar, exigindo respeito. Não, não é preciso deixar de amar ou sonhar, mas para tudo existe há um certo limite na vida.   Domine a técnica do silêncio para se conhecer melhor, evitando assim, desrespeito e muita humilhação.

Muitos se dizem amigos, mas perdoem, e se perdoem, não guardem mágoas ou rancores. Mágoas e rancores geralmente acumulam doenças psicossomáticas. Leia um livro, tenha a ousadia de sonhar e amar, esse é o melhor remédio. Bem-vindo ao século XXI Ei, Abrace a vida! Ame-se...

 

Fabiane Braga Lima é poetisa e cronista em Rio Claro São Paulo

Contato: bragalimafabiane@gmail.com