LAR

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Qualquer lugar que me

sinto em casa chamo de lar.

Meu doce lar.

Ai meu lar.

Doce lar.

 

Meu quarto é o meu abrigo.

A minha cama meu aconchego.

Meu coração minha calmaria.

O meu cheiro em poesias.

Lar doce lar.

 

Sinto paz.

A minha alma é meu doce lar.

O meu quarto, livros e o ar.

Tudo isso faz eu ser lar.

 

MEU CORAÇÃO ESTÁ CHEIO DE GRATIDÃO

Por Liécifran Borges Martins (Cariacica, ES)


Coração alegre e grato assim está meu coração.

Muitos motivos são para poesias transbordar.

Inúmeros pretextos tenho para te amar.

Grata sou, coração alegre está.

 

Você é minha inspiração de amar.

Meus versos de paixão ao ar.

Sou grata pelo nosso amor.

Com você eu vou para onde for.

 

Como é bom acordar ao mar.

Trabalhar com aquilo que ama.

Aprender mais e mais.

Ter por perto os meus pais.

 

Felicidade boa é essa.

Só me traz paz.

Quero te amar mais.

Ser mais um amor.

 

Gratidão ao ar.

Gratidão ao mar.

De amor estou transbordando.

De poesias estou me inspirando.


Liécifran Borges Martins é acadêmica imortal da Academia Interamericana de Escritores - AINTE.

REFLEXÃO: O IMPORTANTE É VOCÊ

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

Lá fora há muitos desafios, maiores até que os desafios dentro de você. Mas se você acredita, você chegará ao topo. Não importa o que falem sobre a sua pessoa ou pensem, nas linhas da sua história está escrita a sua vitória. O que é inútil na sua vida deve ser deixado para trás. Você já passou por isso, se foi capaz de enfrentar tudo isso é capaz de seguir em frente.

         E com relação a amores, o maior amor que você pode ter na vida é por você. Que se dane, não importa o tempo que leva para se encontrar em alguém e fazer dele a sua escolha.

         A vida acontece sem pressa e de forma natural. Seja você mesmo e somente por você, sem filtros e disfarces, com toda naturalidade que deve ser. Você não precisa ser vulgar para ser interessante. Desta forma a sua vida será interessante e sutil.


Clarisse da Costa é poetisa, contista, cronista e designer gráfico em Biguaçu, Santa Catarina.

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

PONTO NULO NO CÉU: A SENTINELA

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

            O cabo Bruno Marques, perdeu a noção da realidade em que vivia, de quanto tempo estava naquele pesadelo vívido, parado, estático, em prontidão e olhando pela fresta da torre de observação para o nada. O fuzil FAL, com mira laser, estava na mão esquerda, os óculos de visão noturna estavam ajustados para módulo, de noite com forte nevoeiro. Os dois drones militares, que circulavam no alto do quartel, permitiam a visão clara do que ocorria, em volta do batalhão. Os dois aparelhos, de municiados e última geração, transmitiam alternadamente as imagens das muitas câmeras, instaladas nos drones de vigilância, para os óculos do cabo, em tempo real. O militar podia ajustar as câmeras dos drones, ele podia congelar as imagens, dar zoom, mudar para módulo para escaneamento térmico e o cabo também poderia retroagir as cenas, acessando os bancos de imagens.

            Nos seus exatos quinze anos de corporação, ele jamais vira tal coisa, como vinha ocorrendo ultimamente, eram burburinhos aqui e ali, geralmente dito em voz baixa e em tom de confidência, em trocas de turnos e horas de folgas. Eram rumores de uma possível volta a um passado, não muito distante, pois como em um prenúncio, corpos sem vida, de elementos do submundo, que antes se amontoavam em escuros becos e mal iluminadas vielas. Agora estranhamente, estavam aparecendo em ruas e avenidas movimentadas, tudo abafado por ordens que vinham de topo, de cima.

            Eram tempos de insurgências, de guerras subterrâneas, entre as internas do crime organizado, contra as forças do serviço de segurança pública. Rumores da quebra da paz armada, negociada pelos dirigentes das forças de segurança, com os comandantes do crime organizado. Tudo feito nas sombras, em tempos passados, mas não muito distante. Tudo mediado por políticos de profissão e o comando das organizações criminosas, tudo em nome do bem-estar da população em geral e os interesses variados. Tudo isso, foi bem antes do cabo Bruno Marques, entrar na corporação, mas eventos muito bem guardados, nas memórias coletivas dos que viviam, no baixo medievo local. E uma sombra negra, como a mais de todas as negras noites, se aproximava lentamente no horizonte e o militar de baixa patente, o cabo Bruno Marques, sentia bem isso, no seu âmago mais que profundo.                    

            Os óculos se auto ajustam, para modo de neblina densa, um dos drones vigilância parou de enviar imagens e dados, depois o outro também parou. Cabo Bruno Marques, não soube qual o motivo, mas olhou para o céu e viu uma estranha nuvem de pássaros. Era uma revoada que passava por cima do batalhão e depois partirá em direção das não muito distantes paras duas Torres Fiote-Xoclengue. Um grito primal inaudível, ecoou pelo tempo e pelo espaço, chegou no cabo Bruno, fazendo gelar a espinha e se perdendo no espaço, chegando nos recônditos mais obscuros do cosmo, alguém ou algo se regozijou.   

            — Então começou de novo, eu não estou mesmo maluco, ora essa! — O policial militar falou em voz alta, sem se importar, com as câmeras ali instaladas, que gravavam tudo que ele falava e fazia. E que alguém ou uma inteligência artificial, faria um relatório do que ocorreu no turno do cabo Bruno.  

            Ele bem sabia, que dali a pouco tudo, que fosse eletrônico, mecânico ou elétrico, iriam parar de funcionar ou funcionariam de formas precárias. Ele ainda teve o ímpeto de ajustar os óculos e olhar para o portal de entrada de acesso ao quartel e viu dois famintos cães vira-latas caramelo, que se aproximavam, mas de repente os óculos pararam de funcionar. A sentinela ainda tentou usar o rádio na mesa ao lado, mas o rádio comunicador analógico não estava funcionando. Como manda o protocolo, ele tentou usar o telefone móvel no cinturão, para avisar o comando, mas o telefone também não estava funcionando. A sentinela tirou os óculos de visão noturna e olhou para fora e viu que a neblina não parava de se adensar. A luz do posto de observação se apagou e as luzes de emergência começaram a funcionar automaticamente.       

            Marques se lembrou da figura do velho pai e as suas histórias de pescador, o velho pescador de profissão, filho e neto de pescadores artesanais, contava como de vez em quando, em alto mar aberto, surgia estas mesmas densas neblinas do nada, antes de um naufrágio ou acontecimento trágico. Marques nunca soube se era verdade ou não esta introdução dos relatos fantásticos, que o velho pai contava.

      A figura do velho pescador esvaeceu, quando um outro militar apareceu do nada, quebrando o protocolo militar, pois sempre havia um aviso prévio, nas trocas de turnos fosse qual fosse as funções, para evitar acidente e outros constrangimentos. Era um sargento, que estava vestido com uma calça cáqui, coturnos bem engraçados, uma camisa preta e uma toca ninja. Marques ficou em posição de sentido, o cabo viu a patente de sargento no ombro esquerdo do militar, era um policial especializado, membro do serviço de inteligência. O que por si só explicava, a falta do sobrenome no uniforme, somente um número aleatório.

          — Descansar cabo! O velho quer bater um papo amigo contigo! — Disse o sargento.

          — O velho senhor? — Perguntei confuso.

          — O tenente-coronel Moreira César, ele que ter a honra de gastar um latim, com a vossa senhoria cabo é simples assim. O homem está ansioso, te esperando, na sala dele, entre sem bater, assim disso o velho, nada de salamaleques funcionalistas da academia militar, hoje não meu estimado. — Respondeu de forma informal o sargento.

        O cabo Marques, sem entender nada, sem saber o que fazer, ficou calado e um silêncio constrangedor se abateu na torre sul, de observação. Sobre o linguajar inculto do sargento, o cabo Bruno, creditou ao fato do sargento ser uma célula de infiltração.

          O sargento ficou parado e levantou a mão ao ar, a poucos centímetros do cabo Bruno, sem falar nada, pedindo para o cabo repassar o fuzil, e a sentinela repassou a arma para o sargento.

            — A pistola também cabo, faça o obséquio, de me passar todas as armas, que estiver carregando. É uma ordem cabo, por favor não faça o homem esperar muito, pois nunca vi o velho com tanto bom humor, como vi hoje. — Ordenou o sargento em voz de comando! — E continuou— Nada de salamaleques! E nada de funcionalismos da academia militar, meu estimado!

            A sentinela, sorriu nervoso, passou as armas para o superior imediato, e sentiu um enorme calafrio na espinha, pois tinha medo do desconhecido, tinha pavor de tudo que não compreendia. O cabo bem sabia, que algo ruim estava acontecendo naquela hora: — Nada de salamaleques! Nada funcionalismo da academia militar! Meu estimado!  Eram códigos mais que desconhecido, era incompreensível ao extremo, pelo menos no meio marcial, no qual o cabo fora treinado. Daí o cabo Bruno pensou, que o serviço de inteligência, deveria operar assim mesmo, de maneira informal, que se estendiam ao meio militar, pois eles não só coletam dados e sim trabalhavam infiltrados nas organizações do crime organizado. O serviço de inteligência, era conhecido e reconhecido por não se misturar, com as outras unidades, por questões óbvias. Pois nada incomum, que agentes públicos e agentes dos serviços de segurança pública, se misturarem, se associarem, com pequenos criminosos e até organizações criminosas. O militar bateu continência, para seu superior e deu as costas para o outro até ser impedido de continuar a andar, pois a mão do sargento segurou-lhe o ombro com muita força.  

            — Eu disse todas as armas cabo, tirar o colete, a Beretta, o comunicador auricular, a faca e o canivete também. Passa agora para cá! Vamos! — Ordenou o cabo.

            Passado o desconforto inicial, o cabo passou todo o seu equipamento de serviço, para o sargento, por um breve momento. Marquês pensou que iria ter que tirar toda a roupa, ou ser revistado pelo superior hierárquico, como se fosse um marginal de rua qualquer. O sargento colocou todo o equipamento em cima da pequena mesa e então tirou a toca ninja. O cabo reconheceu de imediato, o sargento Alexander, o instrutor chefe de armas e responsável pelos equipamentos bélicos do batalhão, era o melhor atirador de elite do quartel, assim diziam.

           O sargento Alexander, homem duro e cumpridor dos seus deveres, atento a todas as normativas militares e todos os protocolos funcionais de segurança. O cabo Marquês, muitas vezes ouviu o sargento bradar alto e bom som, que gostava mais das armas, do que das pessoas. Segundo o sargento, as pessoas não são confiáveis e em momentos de embates, o seu porto seguro, eram sempre elas, os armamentos que ele tinha em suas mãos. Assim pensava e dizia o sargento.

              — Cabo! Use as escadas, os elevadores não estão funcionando no momento. — Disse Alexander.

              — Mais alguma recomendação oficial? — Perguntou a sentinela.

              — Sim é claro, tire este desconfiado sorriso besta de civil, da cara e ande logo. Aqui a ordem unida é lei e o coronel não gosta de esperar. — Disse o sargento em tom marcial, contradizendo-se.

            A sentinela, deu as costas e seguiu em marcha, ao descer pelas escadas da torre sul de observação, o cabo teve outra estranha sensação. O corredor que levava a escadaria em caracol, parecia mais estreito e as próprias escadas, pareciam não ter fim quando ele avançou e olhou para baixo. Ao enfrentar a dura caminhada, o militar perdeu a noção de tempo de novo, parecia que as escadarias, de fato não tinham fim, o militar pensou que estava ficando louco.            

           Outro fato que chamou a atenção do militar, foi que ele não tinha visto o coronel Moreira Cesar, entrar no batalhão. Ele viu quando o coronel saiu sozinho e a pé do prédio, como ele sempre fazia, na mesma hora, antes do cabo perder a noção de tempo. E Marques não viu o militar de alta patente, voltar para o prédio. O batalhão, por motivos óbvios, tinha somente uma entrada, e outras três saídas alternativas, que só abrem por dentro. E caso elas fossem abertas, de qualquer forma, Marques e as outras sentinelas, postadas nas outras torres de observação, seriam informadas de imediato. As sentinelas seriam informadas, pelo sistema eletrônico, que controla os sensores das portas da saída e entrada, das janelas do prédio. E se o sistema falhasse os drones, os informariam da abertura, de qualquer das portas alternativas e das janelas. E por fim pelas câmeras internas de vigilância, que eram ativadas pelo movimento, também avisaram as sentinelas, das aberturas das portas e janelas. O fato era que o cabo Bruno Marques, estava mais que curioso, para saber onde aqueles corredores sombrios e seculares o levariam, se é que o levariam a algum lugar.

 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noite de tempestades e frio. Texto de Clarisse Cristal, poetisa, contista, novelista e bibliotecária em Balneário Camboriú, Santa Catarina.

 

CLARISSE CRISTAL E O AMANHECER DE UM NOVO DIA

Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

Olho para trás

Preciso ver o que perdi

Tentar sentir novamente

O que já não existe mais

O que ficou para trás

***

Mas creio que não sobrou muita coisa

Do nosso sacrossanto amor

Minha divina Luna

Não sobrou muita coisa

 Para nós dois, meu negro anjo

 

            Clarisse Cristal, viu o alvor da luz de um novo dia, um despontar lento no horizonte infinito, um nascer do dia como jamais sentira na jovem vida. Ela olhou maravilhada para o oceano Atlântico, para o astro rei soberano, como só ele sabe ser, impondo a forte luz laranja, em meio às nuvens cinzas e as águas verde mar. Sim, aquele era um novo dia de fato, o primeiro de muitos que sucederam dali para frente, foi uma promessa que ela fez para si naquele exato momento.

          A bibliotecária, parada e de pé, na sacada do requintado apartamento, de cobertura, do emérito professor luso-africano Adérito Muteia. Ela estava extasiada e contemplando o esplendor do amanhecer de um novo dia no novo mundo. Ela completamente nua, o perfeito corpo negro, mais parecia uma escultura vivida de ébano, que se confundia e se completava harmoniosamente com, a decoração estilo neoclássica da casa do misterioso luso-africano.

         E em um olhar mais apurado, contudo parecia que era peça que faltava, para quebrar o rigor estético e simétrico neoclássico do lugar. Clarisse Cristal escutou o forte ronronar do dono da casa, não muito distante dela. Ele que estava também nu e deitado na enorme e confortável cama de casal vitoriana, ladeado com as imponentes cabeceiras douradas, dois abajures um ligado e outro apagado e capitonê! O ronronar que evolui para balbucios em um dialeto africano de forma brusca. Ela não gostou, nem um pouco, de vê-lo tão angustiado assim, era um pesadelo, ela intuiu o óbvio naquela hora onde os sentimentos bons e ruins se misturavam para o além do imaginável. Pois ele era um fruto proibido, que ela acabara de provar e as consequências não tardariam a chegar, tão certo quanto o nascer do sol que ela contemplava naquele momento. E as evidências estavam espalhadas por todo o amplo apartamento ricamente decorado e em especial em uma pintura de um retrato de tamanho natural. Uma reprodução mais que perfeita da fotografia, que ela vira a poucas horas passadas na sacada do Café Ivory Tower. Clarisse, reconheceu o trabalho, e não tinha como não reconhecer, era uma obra de um jovem artista negro que fora estudar belas artes na Alemanha, há tempos atrás, era um conhecido discípulo de Adérito Muteia. O quadro, um produto do movimento do romantismo, que detinha um ar mais aristocrático do que a fotografia, o precioso quadro estava postado no hall de entrada do apartamento. E era um poderoso recado, para quem por ali chegasse pela primeira vez, de quem mandava ali. A dona da casa era Agnela e aquele homem é só seu. A casa era dela e as marcas estavam em toda parte, das peças caras, raras e artesanalmente produzidas do mobiliário, planejado que por fim se misturavam harmonicamente, com as pequenas peças de decoração baratas compradas nas lojinhas ali na esquina. Eram artigos da cultura afro-brasileira e indígena, frutos da produção em massa, Clarisse calculou que era para quebrar o rigor neoclássico e aplacar o gosto do homem da casa. Nada de excessos, nada de exageros, nada em demasia, ali reinava a harmonia, a perfeição, a simplicidade e o bom gosto estavam em toda parte para onde se olhava e por fim o equilíbrio entre o caro e o barato, o artesanal e o fabricado em massa. Clarisse viu a mão leve e talentosa de Agnela, em tudo e uma leve supervisão de Adérito. Também em pequenos detalhes, nas cores principalmente vivas e fortes que remetiam à África, aos povos das florestas e nos livros à mostra.

            Clarisse respirou fundo, esticou a braço esquerdo, foi até a sua bolsa tiracolo bege para notebook, que estava posta em uma cômoda. Ela nem se importou em checar o celular e o tablete as inúmeras mensagens em vários aplicativos e chamadas perdidas, na verdade nem cogitou a possibilidade. Ela divagou um pouco sobre o clube virtual formado só de mulheres e para mulheres, o grupo sutiã vermelho e das longas trocas de mensagens proibidas para homens. Eram tolas reminiscências da outra vida, onde tudo era superficial, fluido e urgente, nada era nada e tudo era tudo. A jovem mulher tirou da bolsa um notebook e foi ocupar uma cômoda não muito longe dali. Sim, ela ocuparia a mesa de trabalho do enigmático literato luso-africano Adérito Muteia, por um breve momento. Era um sonho muito distante, se revelou uma perigosa realidade, com infinitas possibilidades e nenhuma delas era boa de fato fosse para quem fosse. 

Fragmento do livro: Em dias de sol e calor, em noite de tempestades e frio. Texto de Samuel da Costa, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina. 

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br 

DEIXE-ME SER SUA

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Ressurgi na minha escuridão,

Sempre calado...

Olha-me apenas, como a sua amiga,

Quando na verdade

O meu pensamento está em pecado,

Loucura misturada com insanidade!

***

Nunca se entrega às minhas súplicas,

Intimida-me com palavras sem nexo,

Será que existe reciprocidade?

***

Tomada por um desejo,

Sou eu querendo provar

Dos seus beijos

E saciar todos os seus pecados,

Ser a sua mulher, amante,

Ser toda sua.

***

Há tempos lhe almejo,

Será que não mereço ser sua joia rara?

Sua eterna namorada, a sua musa!?

***

Deixe-me embriagar a sua vida de amor,

Sem controle, sem medidas, sem pudores,

Deixe-me ser toda sua, incógnita doçura...!


Fabiane Braga Lima, é poetisa, contista e cronista em Rio Claro, São Paulo. 

CLARISSE E O ASTRO-DOMO

Por Clarisse Cristal (Itajaí, SC)

 

Olhe bem para os olhos meus

Minha querida

Pois é última vez que os verá

Parto hoje no dilúculo

Parto para sempre

 E para nunca mais voltar

 

             Ela olhou para trás e pode contemplar o homem deitado na cama, ele resmungava em um dialeto africano e se debatia levemente. Por um breve momento Clarisse Cristal quis compreender o que ele balbuciava naquela hora. Um devaneio somente, pois ela já tinha muitas coisas com que se preocupar, terminar o que tinha começado antes de tudo antes de tudo. A jovem mulher então elevou de forma bem lenta as delicadas e hialinas mãos, até o teclado do microcomputador, e ela ligou no piloto automático, pois o texto para a revista de arte e literatura Astro-domo, já estava mais que pronto e agora era só fazer brotar na tela do aparelho.

 

Epílogo 1:

 

Reminiscências de um passado que não passou

 

           Fui encontrar Adérito Muteia, um ícone cult da literatura subterrânea da atualidade, no deck do Café Ivory Tower, em meio de flores negras e as flores vagas, tendo o mar como testemunha. ‘’Nada é de verdade e vivemos em um mundo de mentiras e de doces ilusões, minha querida Clarisse Cristal!’’ — Confidenciou-me o grande escritor, poeta, ensaísta, crítico de arte e professor africano de literatura moderna e pós-moderna.

            Sim, subterrâneo e com o direto as todas as negras linhas em imaculadas páginas em branco, deste mundo e de outros mundos também. Pois o artista neossimbolista e neossurrealista luso-africano se escondeu, até a pouco tempo, se resguardava entre vários pseudônimos e heterônimos.

            A obra do pensador Adérito Muteia está distribuída em textos disseminados em várias revistas de pequenas tiragens, jornais obscuros, em livros de tiragens limitadas, livros digitais, textos espraiados em redes sociais digitais e opúsculos. Perguntei sobre o seu obscuro e nevoento passado de luta armada na velha África e no norte da Europa, o professor luso-africano foi enfático: — Fui abduzido das salas de aula que tanto amava e ainda amo, de forma virulenta, fui convocado para luta armada, pela libertação do meu país natal, países irmãos africanos e no norte do continente europeu. Eram tempos da guerra fria, do dito mundo bipolar, do equilíbrio do terror. São coisas do passado, não muito distante, minha querida Clarisse Cristal, de um mundo que já não existe mais e que a tua geração não pode compreender em absoluto! — Desconversou o professor luso-africano, não querendo aprofundar-se em demasiado em fundas vermelhidões de velhas chagas, ainda abertas, que ainda escorrem em rios, de um passado que na verdade não passou. Sobre as suas aventuras e desventuras de guerrilheiro comunista no velho mundo, deixaram profundas marcas na literatura de Muteia.

            Prossigo a entrevista e perguntou sobre a profissão de escritor independente, nos dias de hoje, de escrita cibernética, instantânea e rasa, na era da imagem e da sociedade dos mega espetáculos e a resposta foi enfática: — Escrever é transcender para além das infinitudes, é fugir das obviedades da vida cotidiana! E não conhecer limites algum! — E para definir o que é o mundo em que vivemos hoje o literato assim definiu: — O que é realidade? No mundo de hoje, a realidade é o que a gente quer que ela seja por fim! — E mostrando toda a sua perspicácia e tempo exato, em que as coisas ocorrem, ao antecipar uma pergunta subsequente que estava na ponta da minha língua: — E antecipando a tua inevitável pergunta, respondendo que eu navego, ou melhor flano livremente, entre aos movimentos estéticos simbolista e surrealista. Trafego livremente por estas tendências estéticas, mesmo que esteja fora de moda falar em movimentos estéticos e literários nos dias atuais. E vós digo que para os padrões de hoje, estás duas tendências literárias e estéticas que mais podem representar o que costumeiramente se chama pós-modernidade! E te digo do alto da minha frágil mente difusa, que estes dois movimentos estéticos, um pré-modernista e outro modernista, são as linhas mestres estéticas, que melhor definem o pós-modernismo caótico contemporâneo em que vivemos hoje, o dito mundo liquefeito, como nominou um filósofo do leste europeu!                        

            O catedrático prosseguiu a conferência, me dizendo que no passado, não muito distante da humanidade, a arte escrita, em específico, era produzida no bico da pena, tinta, mata-borrão, papel e iluminada por luzes de velas e lampiões, produzida por poucos e consumida por poucos. E tudo mudou, avançou com o processo da mecanografia, da cultura de massa. Então livros, jornais e revista passam a ser produzidos em larga escala e para uma população cada vez mais maior e urbanizada e o letramento se expandiu a índices nunca visto pela humanidade: — Escritores, e artistas em geral, deixaram o mundo seguro da proteção de poderosos potentados, de reis e rainhas, da elite monárquica e de ricos mecenas. Escritores, e artistas em geral, passaram a servirem e serem sustentados por um público leitor/consumidor de artes, da então nascente cultura de consumo em massa. Isso tudo predominantemente no dito ocidente judaico/cristão e greco-romano no novo e velho mundo. — E em uma divagação sobre passado, presente e futuro, Muteia evoca a Akademos. A academia fundada por Platão, que foi construída nos jardins consagrados em homenagem ao herói ateniense Academus, um dos heróis troianos, da mais que famosa Guerra de Troia (século XII a.C.), que originou o nome Academia.

            Nas palavras de Muteia: — Se no passado mais distante os pensamentos, as dúvidas e as divagações mais profundas eram restritos para poucos, na academia e lugares de meditação. Os atuais avanços tecnológicos, vulgarizaram demais o saber, a tal ponto que promoveu os tolos, os imbecis e os rasos de pensamentos em sábios e catedráticos, que no passado somente falavam para uma diminuta população também de tolos, imbecis e rasos. Mesmo que se de um lado o conhecimento esteja democratizado, pelo menos um pouco mais, há hoje uma enorme biblioteca pública digital e acessível a um crescente público, porém há uma enorme cidade de pessoas produzindo muitas inutilidades, promovendo massacres teóricos e banalizando questões seriíssimas.

            Para finalizar esta primeira parte da longa entrevista, com o emérito professor luso-africano Adérito Muteia. E com a promessa, de irmos até o cerne da produção literária do proeminente professor e pôr fim ao semianonimato do literato luso-africano. Ficam muitas perguntas e poucas respostas no ar para serem desenhadas por Adérito Muteia e captadas em um gravador digital e trespassada para o subconsciente e inconsciente meu para depois ganharem vida própria nas páginas da revista da Astro-domo.

Fragmento do livro Em dias de sol e calor, em noite de tempestades e frio, de Clarisse Cristal, contista, poeta e novelista em Itajaí, Santa Catarina.