A PALAVRA SABEDORIA E ALGUNS NOMES AFRICANOS

Por Clarisse da Costa (Biguaçu,SC)

           Para os africanos, a sabedoria, são as inúmeras experiências vivenciadas ao longo da vida além daquele conhecimento adquirido e compartilhado. Essas experiências ajudam a contar as histórias dos povos e passar adiante todos os seus ensinamentos. Contudo na sabedoria africana encontramos muitos provérbios. Têm um provérbio que diz: "É preciso uma aldeia para se educar uma criança”.        

       Para o seu entendimento, provérbios são linguagens da “sabedoria popular” que manifestam algum aprendizado ou alguma reflexão importante, seja para aquele que ouve como para aquele que conta. Como estou a falar de sabedoria encontrei o nome Kaya. Este nome feminino africano significa “sábia”.

        Entretanto, isso me fez pensar na possibilidade de outros nomes e seus significados, foi então que continuando com essa busca encontrei 14 nomes: Zahara significa “flor". Aisha significa “vida”. Laila significa “noite”. Zuri significa “linda”. Amara significa “graça”. Nala significa “presente”. Zola significa "tranquila”. Ayana significa “florescendo”. Sanaa significa “arte”. Malika significa “rainha”. Zoya significa “vida”. Amani significa “paz”. Adanna significa “pai é rei”. Asha significa “esperança”. 

 

 Contato: clarissedacosta81@gmail.com

AS BEATAS (PRIMEIRA PARTE)

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Esperando por você.

Supra o meu querer.

Venha meu Poeta, faça-me crer.

Recite poemas de amor, recite!

Crie uma síntese no decorrer,

Madrugada afora sacie os meus gostos.

Ouse nos versos, deixe acontecer...!

 

 

          As beatas se reuniam no linear da lavoura, enquanto os homens se reuniam na varanda da casa grande. Os homens se embriagando e as mulheres rezando o terço, que era bem estranho, para quem visse a cena que se desenrola e não vivia aquela realidade. Para as pessoas ditas normais, nos seus cotidianos, que viviam no vilarejo, diziam aos sussurros e abertamente que as quatro beatas, eram bruxas.                 

         Jovens e bonitas, elas se achavam as donas do pequeno vilarejo, enquanto seus esposos ficavam soltos, rodeadas de mulheres, homens casados em cabarés e entregues a outros vícios, não era normal aos olhos de muitas pessoas do lugarejo. E para alguns a situação toda era motivo de piadas e ninguém sabia o porquê. Para o padre Luiz, Lú para as pessoas mais próximas, o modo como viviam as quatro famílias abastadas, estavam vivendo normal. Para o religioso, famílias ricas assim se comportam, no passado, no presente e no futuro.

        Então tinha a jovem Tula, que era apaixonada pelo padre, um segredo que todos sabiam. Tula, a jovem mulher nunca conseguiu disfarçar a sua paixão pelo clérigo, se arrumava bem e era sempre a primeira a chegar e sentada na primeira fila nas missas.               

         Certo dia, Tula, ela sentada na primeira fila, rezava o terço, com os fartos seios quase à mostra, pois, ela se comportava como se estivesse sozinha e à espera do padre Luiz.  Assim que entrou no altar, o padre Luiz, ele vestido com uma imponente túnica roxa, o homem de Deus cumprimentou a todos e começou a sua missa, o padre Luiz não dava ousadia para a devota Tula. Naquele dia em particular, a jovem Tula saiu furiosa da missa assim que ela começou.

            Richard, o esposo de Tula, sempre foi um bom homem, nos conhecemos no colégio, éramos amigos. Richard, muito querido, entre todos e principalmente entre as mulheres desde os tempos de colégio.

          Relatei o passado e hoje, Richard, praticamente, estava vivendo nas ruas, como um mendigo. Fui até ele, com a intenção de puxar uma conversa.

          — Richard! Sou eu a Sara, a sua amiga do colégio! Se lembra de mim? — Perguntei sem rodeios ao chegar perto dele.          

          — Sim, me lembro, me deixe em paz! Vá embora! — Respondeu Richard.         

             Aconteceu, o que eu previa! Tula e padre Luiz juntos? Eu precisava descobrir o quanto antes. Como não amar Richard? Eu não entendo!               

 

 

 

Contato: debragafabiane1@gmail.com

 

AS BEATAS (SEGUNDA PARTE)

Por Fabiane Braga Lima (Rio Claro, SP)

 

Esperando por você.

Supra o meu querer.

Venha meu Poeta, faça-me crer.

Recite poemas de amor, recite!

Crie uma síntese no decorrer,

Madrugada afora sacie os meus gostos.

Ouse nos versos, deixe acontecer...!      

 

          Richard, foi extremante rude comigo, pois eu apenas estava preocupada com ele. Pensando bem, Richard traia Tula, com outas mulheres, que a meu ver não era nada normal. Então, qual o problema de Tula ser amante de padre Luís?

         Imbecil, foi merecido, bom, eu havia apenas deduzido, acho que queria, aliás, quero, que seja verdade, pois sinto uma forte atração por Richard, desde da época do colégio. Ah! Com eu queria, passar ao menos uma noite com ele.    Sabe, não será difícil, afinal, ele vive em cabarés com outras mulheres.               

         No dia seguinte, entreguei mantimentos na lavoura, poucas pessoas aí até o estranho lugar. Como eu esperava lá estavam as devotas, olhei com curiosidade as quatro beatas. Na frente da casa grande um administrador e estava me esperando, incrivelmente o homem, queimado pelo sol, estava sorrindo. Eu imaginava uma cara sisuda, vou popular os detalhes da entrega que fiz naquela manhã de sol.  Entrega feita, olhei no relógio, pelo horário, Tula estava chegando na igreja vestida com as suas roupas decotadas é com o casaco na mão. Parti rumo à cidade, sem olhar para trás, seria uma pequena viagem.

         Chegando na cidade, achei melhor não me arriscar, fui direto para casa e não pararia no centro da cidade, mas não teve jeito, de repente, Richard aparece, me interpelando. 

         — Sara, me desculpe pôr ontem, não tive a intenção de ser rude, desculpe-me? — Disse Richard envergonhado.

        — Claro que o perdoo você! Sabes que não guardo mágoas! — Disse me esforçando para não dar um tapa na cara de Richard.         

         — Estava com saudades, de conversar com você — Falou Richard sorrindo com os olhos. — Eu também, que tal…

         — Que tal, o quê? — Interrompi alarmada com o rumo da conversa.

         — Passarmos a noite juntos, bebendo vinho e relembrar os bons tempos na época do colégio. — Falou Richard.  

         — Mas, e sua esposa? — Perguntei para ver de fato até onde ele iria.      

         — Somos liberais!

             Liberais? Estranho logo pensei, ou ele estava mesmo incomodado com a sanha de Tula, para cima do padre Luís.        

           — Richard meu bem! É tudo meio complexo para mim, porém, estaria mentindo, se negasse o meu interesse pelo convite — Respondi com ares de mulherzinha ingênua

          — Então? — Perguntou Richard pendendo a cabeça para a esquerda, como sempre fazia quando estava fragilizado, com medo ou confuso.   

         — Aceito! Estarei em casa à sua espera! — Respondi e fui embora sem olhar para trás. — Que os jogos comecem! Gritei bem alto, chamando a atenção dos poucos gatos pingados que estavam na praça.            

 

Contato: debragafabiane1@gmail.com

MAÊTICA: ARTHUR DIANTE DO ESPELHO

 Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

Há o despertar impermanente

Somente para te desnudar

Entre sedentas lágrimas de ébano

Trágicas carícias cósmicas

E abissais algozes desejos sonolentos

 

 

 

Arthur estava mudado, o que era de se esperar, depois de uma longa viagem, pois o jovem literato queria conhecer o mundo. Não os grandes centros urbanos do Novo mundo e da velha Europa. Arthur, o pretenso escritor, queria andar pelas escaldantes areias do deserto africano. Navegar e vislumbrar no azul do mar mediterrâneo, contemplar as milenares ruínas do oriente e do oriente médio e indo parar em cidades e ilhas perdidas no sudeste asiático. Depois conhecer a América Central, navegar pelo caribe e se perder no México.

Arthur conhecia bem, os grandes e médios centros urbanos de seu próprio país, as grandes paisagens interioranas, dos grandes estados e as agitadas cidades turísticas do litoral. Sempre em viagens de férias com a família, ou em excursões escolares e com amigos, idas a espéculos variados. Mas a sede da solitude, era grande, enorme a bem da verdade.

E, depois que perambular perdidamente, por terras distantes, aprender novos hábitos, aprender novos falares, outros idiomas, provar novos sabores, se embriagar com diferentes bebidas e se entorpecer, com diferentes alucinógenos. Se apaixonou, perdidamente, por diferentes mulheres de diferentes etnias e viveu rápidas aventuras.

Agora, Arthur estava de volta, tinha voltado para a bucólica cidade interiorana que o viu nascer e crescer. E como a volta para casa lhe doía no seu âmago, mais que profundo, ali não era mais a casa dele, ali era um outro lugar, um lugar desconhecido.

E Arthur em seu estúdio, o seu outrora amado local de trabalho, diante de um espelho. Ele teve um vislumbre de um tempo perdido, de uma vida que não era a dele. Um conclave, em um suntuoso e enorme salão de festas. Arthur, estranhamente reconheceu o lugar e reconheceu todos e todas ali presentes. Eram pessoas de suas relações íntimas e profissionais, homens vestidos de fraques e mulheres usando vestidos de gala. Em meio a conversas amenas proferidas altas, pelo efeito do álcool, Arthur escutou os nomes, assim como os nomes de Condessa Fá Rodrigues Butler e da imperatriz Sibelly Lopez. Arthur sentiu o medo e a admiração de todos e todas ao mencionarem os nomes das duas poderosas mulheres, ele mesmo sem saber o motivo experimentou as mesmas sensações.

— Então! Meu jovem? Como está indo, o vosso novo opúsculo? — Disse um homem gordo e aparência próspera, ele tinha na mão um charuto cubano em uma mão e uma delicada taça de cristal na outra. O homem levou a taça à boca e degustou lentamente a champagne rosé gelado. 

— Está vendendo muito bem o meu último romance, meu senhor! — Respondeu casualmente Arthur, como se conhecesse o homem estranho na frente dele e como soubesse do que estava falando!

— Que marmota é esse mancebo? Te perguntei da nova peça de teatro O rei... O rei... de alguma coisa! Me disseram que é supimpa! Se precisar, conte comigo para montar o espetáculo! — Falou alto o homem, parecia que ele queria ser notado por todos e todas.

Um silêncio sepulcral tomou conta do salão de festas, a temperatura caiu e o olor de gardênia tomou conta do lugar. E uma elegante mulher, de meia idade adentrou de forma teatral, no salão de festas, ela estava usando um elegante negro vestido espanhol. Era a Condessa Fá Rodrigues Butler a razão da festa, Arthur se emocionou ao ver mulher de ares nobres. Ele quis chorar tamanha a felicidade ao vê-la, taças foram erguidas em uma saudação silenciosa e contida para a dona da festa.

Arthur se voltou para o homem, que estava ao lado dele, mas este já tinha sumido e o jovem escritor o viu dirigir por uma porta lateral. Pareciam que fugia de algo ou de alguém, era patético a cena que se desenrolava. E a cabeça de Arthur começou a doer, de forma leve, bem leve à foi aumentando, até o jovem escritor levar a mão à cabeça e voltar para o seu aposento. O espelho se partiu e um nome explode na cabeça do jovem escritor: Calibor!

 

O DIÁRIO DE KIRA 2

Por Clarisse da Costa (Biguaçu, SC)

A minha ida ao cemitério mudou muitas coisas. Eu encontrei uma pessoa. Parecia ser uma pessoa na verdade. Ele surgiu do mundo dos mortos, algo bem estranho, um lugar considerado cemitério maldito. Para mim foram alguns minutos de ‘’amor à primeira vista’’. Naquele momento, passando pela dor da perda eu me despedia do seu melhor amigo. Num simples gesto de acolhimento ele lhe entregou uma flor, o estranho que sem me conhecer disse para mim que iria ficar tudo bem. Ele tinha no olhar um brilho fascinante, a cor dos seus olhos era impossível de esquecer, de longe chamava a atenção.

Quando estava saindo do local ele estava em frente ao cemitério como se estivesse à minha espera. No dia seguinte eu fui novamente ao cemitério, algo dentro de mim dizia que eu tinha que estar ali e novamente em frente à entrada do cemitério ele estava lá. Como se me esperasse faz horas perguntou: - Por que demorou tanto?

Sinceramente, fiquei sem entender, foi então que perguntei: - Como sabia que eu estaria aqui? E aliás, qual o seu nome?

Olhando fundo nos meus olhos ele me respondeu:

 ̶ Meu nome é Ravi. Eu sabia que você viria.

Então ele me disse algo que de início me deixou um tanto assustada: - Você tem uma ligação com os mortos. Algo que temos em comum.

Assustada com tudo que me disse, pensei em ir embora, mas algo dizia para que eu ficasse. Entrei no cemitério e ouvi uma voz dizendo que a minha vida iria mudar.

E a minha vida mudou drasticamente. Com tantas coisas acontecendo acabei descobrindo o lado perverso e cruel do meu tio Felipe. Contudo descobri que ele foi capaz de me induzir num sentimento que só existia para ele. Eu me vi aprisionada naquela casa, dentro dele tinha um espírito demoníaco. Levou-se tempo, mas eu consegui me livrar dele. Eu não podia desistir, eu tinha a missão, almas perdidas estavam aprisionadas no quarto daquela casa.

Eu tive a ajuda do “espírito da libertação” e o gato Fred. Muitas pessoas naquela época achavam que eu era uma bruxa e quando eu tentava ajudar não conseguia. No dia que me livrei do meu tio eu consegui a ajuda de policiais.  Foi estranho, mesmo com o clarão que fazia na rua e as janelas do quarto abertas, tudo estava escuro na nossa casa.

Foi preciso acender as luzes, parecia que as trevas ainda tomavam conta dali. Havia uma nuvem de fumaça densa no ar. Até me senti mal. Os policiais e especialistas começaram a quebrar as paredes daquele quarto, era nítido que os corpos estavam ali e que eram de jovens moças. Elas aparentavam ter a minha idade. A nossa percepção dava-se aos cabelos longos e vestimentas femininas.

Todos estavam intactos, duas jovens que há anos eram procuradas.

Chorei muito ao ver os corpos serem imediatamente retirados. Nesse momento eu pude ouvir e ver o espírito das jovens agradecendo a ajuda. Vendo tudo isso da janela, mesmo que imóvel, meu tio Felipe começou a suar frio, acho que o medo lhe tomou conta ao ponto de desmaiar no chão, não sendo mais visto pela janela. Então fomos todos para a rua à sua procura, até que estivemos diante de um surpreendente acontecimento. Aquela fumaça densa saiu de dentro da casa e encobriu Felipe levando-o para o mundo das trevas.

Nesse mundo, almas infelizes vivem ali numa eterna escuridão. O que aconteceu comigo depois? Eu ganhei asas e saí daquele lugar sem destino. A minha história poderia acabar por aí, mas não foi assim que aconteceu. Entrou no meu destino Daemon, um espírito maligno, resquícios da mente cruel do meu tio Felipe.

 

Contato: clarissedacosta81@gmail.com

 

SIN/PECADO


Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)

 

Para Fáh Butler Rodríguez

 

Pediu-me delicadamente

Para eu apagar todas as luzes

Da alcova

Para sagrarmos juntos

O nosso amor clandestino

No breu absoluto

 

***

 

Pediu-me

Para sagrarmos juntos

O nosso suicídio assistido

Na pelágio sem fim

 

***

 

Pediu-me

Para eu apagar todas as luzes

Então somente

 

***

 

Pediu-me para consagramos

O nosso clandestino amor

Na fossa abissal infinda

A nossa pelágica paixão

Em tempos de guerra

De desespero e dor infinita

 

***

 

Pediu-me

Para apagar todas as luzes

E acender as nevoentas velas

Para sagrarmos

O nosso amor transfigurado

Em dias de paz

 

***

 

Pediu-me

Para esperá-lo na alcova tua

Vestida de minudências apenas

E nada mais

 

 

Contato: samueldeitajai@yahoo.com.br

 

VALHALLA (BALADA DEL REI)

Por Clarisse Cristal (Balneário Camboriú, SC)

 

‘’Parei de juntar os fragmentos do meu coração

O coração incauto sofre inúmeras desilusões

Fui cautelosa! Cessei as reticências.

Ponto final.’’

 

Fabiane Braga Lima

 

 

 

Eu ousei escrever

Agora leia-me

Sem rancores

Sem dissabores

E sem mágoas

 

***

 

Eu simplesmente ousei

Ser eu mesma 

Existir sem afetações

Sem medos

Sem neuroses 

Sem rancores

 

***

 

Sim! Eu ousei compor 

Não em belas-letras

Não em belas-artes

Não em línguas mortas

 

***

 

Eu beijei

Ardorosamente na boca

A minha colega de trabalho 

Como se fosse algo banal 

Não como um ato supremo

De libertação da minha

Sôfrega negra alma 

Da Celestial ebúrnea torre de marfim

 

***

 

Eu decidi escrever

Um sinctético texto pós-moderno

Agora leia-me

Sem sibilinas paixões

Sem apopléticas pressas

Pois fui eu que desci as escadas

Da Turris Ebúrnea 

Fui à procura do meu Santo Graal

Em belas-artes 

Em belas-letras