quinta-feira, 1 de janeiro de 2026

EDITORIAL - 15 ANOS DA REVISTA CERRADO CULTURAL

Em 1º de janeiro de 2011, nascia a Revista Cerrado Cultural com uma proposta simples e, ao mesmo tempo, ousada: criar um espaço livre e plural para a literatura, a arte e o pensamento crítico, tendo o Cerrado — bioma, território simbólico e cultural — como ponto de partida e horizonte de diálogo. Quinze anos depois, ao chegarmos a 1º de janeiro de 2026, celebramos não apenas o tempo decorrido, mas a permanência de um projeto que resistiu, se transformou e seguiu fiel à sua vocação essencial.

Ao longo dessa trajetória, a Cerrado Cultural tornou-se abrigo para vozes diversas: escritores iniciantes e autores consagrados, poetas, contistas, cronistas, ensaístas, artistas visuais e pensadores que encontraram aqui um espaço de expressão e escuta. Em um país de contrastes profundos e desafios constantes à cultura, manter uma revista literária independente por quinze anos é, por si só, um gesto de resistência e de amor à palavra.

Ser uma revista virtual sempre foi mais do que uma escolha técnica; foi uma afirmação de princípios. Apostamos no alcance democrático da internet, na circulação livre das ideias e na construção de uma comunidade leitora que ultrapassa fronteiras geográficas. Do Cerrado para o Brasil, do Brasil para o mundo, a revista cresceu como um território simbólico onde tradição e contemporaneidade dialogam, onde o local se encontra com o universal.

Nada disso seria possível sem os colaboradores que confiaram seus textos, imagens e reflexões a este espaço; sem os leitores que nos acompanham, comentam, divulgam e retornam; e sem todos aqueles que, ao longo desses anos, ajudaram a manter viva a chama da criação literária e artística. A cada edição, reafirmamos a certeza de que a cultura não é ornamento, mas fundamento.

Celebrar quinze anos é também olhar para o futuro. Seguimos atentos às novas linguagens, às transformações do fazer literário, às urgências do nosso tempo e às múltiplas formas de narrar e interpretar o mundo. Que os próximos anos sejam de continuidade, renovação e aprofundamento desse compromisso com a arte, a literatura e a diversidade cultural.

A Revista Cerrado Cultural agradece a todos que fizeram e fazem parte dessa história. Que venham novos ciclos, novas palavras e novos leitores.

Editor-Chefe
Revista Cerrado Cultural
1º de janeiro de 2026

CARTA AO IMPERADOR DOM PEDRO II


 Por Dom Alexandre Camêlo Rurikovich Carvalho (Teresópolis, RJ)

CARTA AO IMPERADOR

À Augusta Memória de Sua Majestade Imperial, Dom Pedro II, Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil (in memoriam)

 

Não me dirijo apenas ao soberano coroado que a História consagrou, mas ao homem cuja maior riqueza foi a simplicidade do espírito e a nobreza silenciosa de um coração devotado ao bem.

Recordo, com reverente gratidão, aquele que, mesmo assentado no trono, preferia habitar entre livros, manuscritos, instrumentos científicos e obras de arte, como um eterno discípulo diante da vastidão do conhecimento humano. Vossa Majestade, que fez da curiosidade um farol e da sabedoria um princípio de Estado, ensinou-nos que o poder sem cultura é cego, e que a autoridade sem virtude é vazia.

Não governastes somente por decretos e instituições, mas, sobretudo, pela força moral que emanava de vosso exemplo. Soubestes ouvir o povo, compreender lhe as dores e abraçar, com serena humildade, os desafios de um país jovem que buscava sua identidade entre as nações civilizadas.

Mostrastes que a grandeza de um monarca não reside na pompa dos palácios, mas na firmeza de caráter, na doçura do trato e na capacidade de servir com dedicação aquele mesmo povo que vos confiou o destino da Pátria.

Vosso amor pela educação abriu horizontes luminosos às gerações vindouras; vosso apreço pela ciência impulsionou descobertas, debates e instituições que moldaram o pensamento brasileiro; vossa paixão pela cultura fez resplandecer a alma deste vasto Império, conferindo-lhe dignidade, reconhecimento e estima além de suas fronteiras. Fostes, para o Brasil, não apenas o Imperador, mas o patrono das luzes, o incentivador dos talentos e o guardião de um ideal de civilização.

Ao recordar-vos neste solene Bicentenário de vosso nascimento, não enxergo apenas o chefe de Estado cuja biografia habita os anais da História, mas o amigo da sabedoria, o espírito magnânimo que acreditava no progresso humano e o homem de alma serena que, mesmo no exílio, jamais deixou de amar a Terra de Santa Cruz.

Vossa vida - marcada pela dignidade nos dias de glória e pela grandeza nos dias de dor - permanece como uma das mais puras expressões do dever e do patriotismo.

É, pois, com devoção, orgulho e profundo respeito, que dedico à Vossa Augusta Memória está singela e sincera homenagem.

Obrigado por terdes sido mais que um governante;

Obrigado por terdes sido humano;

Obrigado por terdes sido luz.

Com a mais elevada deferência e eterna gratidão.

SE AINDA NÃO TEM, COMPRE UM

Por Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal) 

 

Acabo de sair de capela onde repousa senhora, que o povo canonizou. Venho entristecido e meditabundo: lá encontrei: muita cera; pagelas; terços; medalhas; Iemanjá: ídolos, que não sei o que representam; talvez " bezerros", da umbanda e candomblé.

Refleti amargamente: apesar de me dizerem que o povo está mais culto, porque frequenta a escola, e muitos a Universidade, continua, em matéria religiosa, a pensar como os antepassados iletrados.

Eça disse – que o nosso povo não católico, mas padrista: " Que sabe ele da moral do cristianismo? Da teologia, do ultramontanismo? Sabe do santo de barro que tem em casa, e do cura que está na igreja.” - " Notas Contemporâneas".

E o resultado, é o colapso Moral e da Fé: porque para A obter, além de dom de Deus, é preciso pregação cristocentrica , fiel ao ensino de Jesus.

Vários são os motivos que nos levaram ao descalabro atual:

O primordial é o facto de alguns sacerdotes preferirem agradar aos " fiéis", ensinando: não o que Deus quer, mas o que o povo deseja ouvir.

A Igreja recomenda, insistentemente, a leitura diária da Bíblia, mas os católicos, em geral, preferem colocá-La na estante, como Livro de decoração.

Para ser crente, não basta - ir à missa e rezar aos santos, - é preciso procurar Cristo e, principalmente, cumprir a vontade de Deus.

Como se pode conhecer a vontade de Deus? Na Bíblia, mormente no Novo Testamento. E Neste : no Evangelho.

Não chega para conhecer a Palavra, ouvir homilias e excelentes sermões. Santo Agostinho deliciava-se a escutar as práticas de S. Ambrósio (Bispo de Milão,) que eram regalos para seus ouvidos; mas, o prazer não o nutria, muito pelo contrário.

 Quem deseja conhecer a vontade de Deus, deve ler diariamente, o Novo Testamento. Melhor: o Santo Evangelho.

É nesse Livro – manual de conduta do cristão, – que se encontra o que Deus quer, escrito por quem ouviu e conviveu com Cristo.

Seguir tudo que Jesus ensinou, não fácil – nem os santos o conseguiram, mas tentaram: uns mais do que os outros.

Se ainda não O possui, adquira um exemplar, sublinhe os versículos, que mais o impressionaram, e tente seguir o que Jesus recomendou.

O Novo Testamento – livro de cabeceira do cristão, – deve ser lido e relido: à noite, ao deitar, ou no período das refeições. É bastante barato. Em qualquer livreiro O encontrará, em edição de bolso, de preferência anotado.

Que Deus vos abençoe.

O PROPÓSITO

Por N’Dom Calumbombo (Luanda, Angola)

 

Esta hora é de ficar livre, estou aqui com o corpo paisajado. Nada vale a pena, estas pernas me enchem facilmente. Lembro-me bem quando saía da casa do kota Nbala, às vezes saía da Canjala a correr porque as dores eram frequentes, mas os estímulos eram vedados com a lucidez por desaforos dos velhos tempos, ainda mais com o mais velho Katenda, pai do Rogério.

Sempre que íamos na sua casa trazíamos de lá várias recordações, as noites eram de leme, as histórias contadas na primeira pessoa. A juventude passou-nos em bons tempos. Naquela altura o pão não existia, era a broa que fazíamos em casa do mais velho Katenda; o sofrimento quando o opaco da luz não brilhava entre nós, até naqueles dias de festas, o dezembro era janeiro e os pratos rondavam seminus entre as aldeias.

Cresci com os olhos vedados de esperança, do bem, do mal, da noite para o dia era desterro e a alma que me anoitecia era vilã quando os sermões habitavam no coração daquela gente.

Uma vez Rogério dormiu nos meus braços vendo seu pai Katenda passando no caco da solidão, e o vazio indelével situado bem debaixo do seu matinal, do seu destino e ceder a si mesmo que transmitia protesto.

- Quando isso vai terminar? - questionava-me pálido!

Eu fingia não o ouvir com agudez no seu canto, até mesmo quando as paredes fixavam sobre mim, todas elas, uma lágrima no canto do olho.

- Saiba, Rogério, ninguém prevê o amanhã se não o adeus que vimos como um belo propósito, apesar de nos afetar, mas, ainda assim, a glória permanecerá intacta nos nossos corações. Vê-lo daquele jeito sem fazer nada, só tinha que o distrair, daí, começamos a sorrir; - disse-me maravilha!

O ânimo era leve e tínhamos que nos reinventar. Logo, acabaram-se os medos, que fosse como crepúsculo abnegado que havia adormecido nos nossos rostos. Outro dia dei uma volta na aldeia. Nem que partia comigo as andanças e o desejo de me distrair era tanto que havia também um propósito, talvez um dia saberia o que, na verdade, corrói a população da minha aldeia e a vida escurecida com montes de sacrifícios levedado de dores.

Os traumas eram tantos, tanto que, todas vezes cobrava de mim mesmo astúcia, afinal, as aldeias são lugares de sacrifícios, onde os ratos vivem conosco e a terra acolhe as patas na noite cada sacrifício que se faz durante o dia. Talvez tudo tenha um propósito, falava Rogério: nas aldeias as chamas transformam-se em cinzas e o pó esvaia sobre os tetos das casas!... 

 

Sobre o autor: N'Dom Calumbombo, poeta, cronista e contista

PEGADAS

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)



ESPERANÇA

 Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)


É inverno

o vento frio arrancou 

as últimas folhas

que antes foram refúgio

e abrigo para as aves


Tremem de frio

mas todavia cantam

também elas continuam à espera

por melhores tempos.



DESPEDIDA SOLITÁRIA

Por Germain Droogenbroodt (Altea, Espanha)