Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 9 (Setembro / 2026)
Por
Humberto Pinho da Silva (Porto, Portugal)
Lembra-nos os "Apólogos
Dialogais", de D. Francisco Manuel de Melo, uma grande verdade, mas poucas
vezes dita:
Andava em alvoroço e sobressaltada,
a gente alojada nas costas do Reino - porque havia misero pirata, que
infestava, a costa macedónica, com duas pequenas barcas, movido a remos. Até
que janízaros o arrastaram à presença do Grande Alexandre,
Na presença de Sua Majestade, o
pobre corsário, tremia e temia, receando severo castigo. Porém, movido de
coragem, empertigou-se, e de voz macia e segura, respondeu-lhe às ásperas
injurias de Sua Majestade. Transcrevo as próprias palavras do nosso insigne
clássico, conservando o sabor e a elegância da sua sublime prosa:
- Tá, tá, senhor Alexandre!
Não me trates, que tu e eu, ambos temos um próprio ofício, mas com tal
diferença: que a ti, porque roubas o mundo cercado de exércitos, te saúdam as
gentes por monarca, e a mim, que com poucos companheiros faço pequenos danos,
me infamam de corsário."
E Manuel de Melo, remata: "
Eis aqui como os homens fazem suas medidas! "
Este texto merece reflexão
ponderada:
Se cai nas teias da justiça,
grande senhor, este, apresenta-se aos magistrados, acobertado de juristas
experientes, que com presteza, conseguem que saia ileso ou, pena reduzida.
Mas, se o larápio inculto, que
nunca topou oportunidade, ou por ser fraco de inteligência e de memória,
assalta galinheiro, e não sendo ligeiro, como lebre, foi apanhado nas malhas da
justiça.
Este, sofre sentença impiedosa,
que sirva de exemplo, para os demais.
Recordo o hábil chefe, que era
benévolo para prevaricadores, e validos dos diretores; e cruel, para servidores
humildes. E dizia – se lhe pediam razão. - É necessário dar exemplo...