Revista Cerrado Cultural, Vol. 16, No. 10 (outubro / 2026)
Por Samuel da Costa (Itajaí, SC)
Primeira Parte
De sorriso fácil... Sob a luz da lua.
A Dama da Noite...
A Dona
da noite. Entre a bruma...
Com o corpo marcado... Cicatrizado.
As
imagens e sons abafados que vinham eram fragmentados, convulsos e confusos.
Cigana só se lembrava com exatidão do passeio proposto e realizado com a amiga,
bem cedo naquele dia de sol outonal ameno. Agora, havia apenas aquele mergulho
na escuridão abissal, era uma certeza inconteste e absoluta. Exaurida, nua e
deitada de bruços em uma confortável cama, virou-se e levou a mão direita ao
próprio sexo latejante; um ardor lascivo nascia na boca e descia até a
garganta.
O
estômago estava levemente embrulhado e sentia um leve latejar na cabeça. O que
a angustiava, de fato, não era o sabor agridoce na boca, mas a perda da memória
recente. Sim, houve a caminhada matinal pela avenida movimentada e o café da
manhã, controversos na companhia de Agnes. E os borrões multilíngues, sons
simultâneos e sobrepostos.
Não
saber como ou onde estava depois disso era, de fato, desesperador. Antes de
abrir os olhos e deparar-se com o que tinha feito ou onde fora parar, havia a
certeza de que aquilo não era bom nem profissional, como recomendara Agnes
horas antes. Beber ou usar qualquer coisa na função ia contra as regras da
amiga de ofício: — A palavra-chave é o
controle, Cigana, meu anjo negro. Quem não se controla não sabe aonde as coisas
podem levar!
Eram as
palavras exatas que ela dissera naquela manhã outonal, diante de uma sortida e
sofisticada mesa de café da manhã. Tinha dito isso mesmo ou ela havia sonhado
com a coisa toda? Naquela altura, Cigana já não tinha certeza de mais nada. Um
Boa Noite, Cinderela ou um Acorda, Alice, àquela altura seria patético e constrangedoramente
amador.
A Dama
da Noite relutava em abrir os olhos e encarar a hirta realidade. Ao estender o
braço para o lado esquerdo da cama, sentiu e reconheceu o corpo nu, macio e
quente da outra. A mão passeou pelos cabelos curtos e sedosos da amiga de
trabalho e repousou sobre seus seios fartos. Ali parou. Uma mistura de medo e
alívio tomou a mente da Dama da Noite.
Um
sentimento veio com força, mais que de repente! Agnes era mesmo tudo o que se
ouvia por aí? Dominava tudo e a todos à sua volta, conduzindo as pessoas como
bem lhe convinha? Cigana estava em alerta total; só agora a Dama da Noite,
percebia que os seus sentimentos em relação à outra não eram claros, nem os da
outra para consigo. Era Agnes quem a vinha conduzindo nos últimos tempos, e
este fato fez alarmes dispararem.
Fragmento
da novela: A casa de teto verde! Texto de Samuel da Costa, poeta, novelista e
contista em Itajaí, Santa Catarina.